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      Ninguém duvida que o uso cada vez mais intensivo das ferramentas de inteligência artificial (IA) está transformando o mundo, os negócios e as relações humanas. Olhando para o varejo, percebemos que a tecnologia desperta dois sentimentos contraditórios: por um lado, o entusiasmo de quem enxerga na IA um motor de transformação; por outro, o ceticismo de quem já se frustrou com tecnologias que prometiam muito e entregavam pouco.

      O debate deixou de ser “se” a IA mudará o setor: a questão agora é como, quando e quem conseguirá transformar potencial em resultado concreto.

      O recorte para o consumo e varejo da pesquisa global “KPMG 2025 CEO Outlook” indica que 64% dos executivos do setor já tratam a IA como prioridade de investimento. Contudo, muitos deles admitem que os ganhos percebidos ainda são modestos e que encontrar o uso certo para a tecnologia continua sendo um desafio estratégico. É a clássica encruzilhada entre expectativa e impacto.

      NRF2026: a feira que consolidou a “NRF dos agentes”

      A NRF2026, realizada em Nova York entre 11 e 13 de janeiro, marcou um ponto de virada. Esta edição do tradicional evento do setor de consumo e varejo mudou o patamar da IA, deixando claro que a tecnologia agora sai do backoffice para assumir papel relevante no core do negócio.

      Se até 2025 falávamos em “aplicações de IA”, 2026 institucionalizou um novo conceito: a IA agêntica, ou seja, sistemas especializados, autônomos e autoaprendentes, capazes de não apenas analisar dados, mas agir sobre eles.

      Não se trata mais do assistente virtual simpático ou da recomendação personalizada no e-commerce. Agora, agentes autônomos assumem tarefas complexas: reposição automática de estoque, precificação dinâmica, atendimento proativo, personalização emocional e logística preditiva.

      Durante a NRF, a KPMG lançou o paperAI in Retail – Global lessons from strategy to storefront, conectando tendências a exemplos reais do que já está acontecendo em diferentes regiões do mundo.

      O consumidor do futuro terá um agente

      Uma das ideias mais transformadoras apresentadas tanto na NRF quanto no paper da KPMG é simples e disruptiva: o consumidor não será mais o protagonista de todas as suas compras. Em vez disso, ele contará com seu agente de IA para comparar preços, negociar condições, filtrar opções e definir prioridades com base em valores, sustentabilidade, histórico e orçamento.

      E o papel da marca será o de convencer o ser humano e seu algoritmo. E é aqui que há o choque cultural: algoritmos não se encantam com storytelling, mas com velocidade, consistência e dados impecáveis. É uma mudança profunda, embora pouco discutida. Durante décadas, o varejo foi construído sobre emoção, estética e experiência sensorial. Agora, precisa aprender um novo idioma: o das máquinas.

      Da vitrine à interação: uma nova dinâmica

      O cliente já não se limita a olhar vitrines para fazer escolhas – ou, no caso dos canais digitais de compra, ele não se contenta mais em navegar por páginas e categorias. Cada vez mais, o consumidor dialoga com a tecnologia, expõe intenções complexas, pede recomendações – e a IA entra em cena para interpretar desejos, personalizar ofertas e antecipar necessidades.

      Esse processo se desdobra em quatro estágios:

      • Inspiração e intenção:

        a IA deixa de responder a palavras-chave e passa a “ler” contextos e preferências.

      • Exploração e cocriação:

        o consumidor não apenas escolhe, mas participa. Ele testa versões, personaliza cores, simula usos etc.

      • Compras inteligentes:

        é aqui que a IA agêntica aparece para eliminar atritos: carrinhos automáticos, recomendações contextuais, logística preditiva.

      • Propriedade dinâmica:

        a pós-venda deixa de ser suporte para virar serviço contínuo, com manutenção preditiva e programas de fidelidade adaptativos.

      A revolução silenciosa está nos bastidores — e nos dados

      Se a superfície do varejo muda diante do consumidor, o subsolo passa por uma transformação mais profunda. Cadeias de suprimentos inteligentes, recomposição de estoques, precificação dinâmica e digital twins que simulam a operação inteira antes que decisões sejam tomadas.

      Não se trata de substituir pessoas, mas de ampliar seu alcance. Segundo o estudo “AI in Retail – Global lessons from strategy to storefront”, 73% dos CEOs já estão redesenhando papéis para integrar humanos e IA de forma colaborativa.

      A operação também muda de patamar: fluxos são otimizados, há uma redução nos desperdícios, fraudes são detectadas com rapidez e tarefas administrativas deixam de consumir horas valiosas. O varejo inteligente não é o do robô que atende sozinho, mas o do humano que de fato faz o que importa.

      Ascensão da IA agêntica

      Se hoje é o consumidor que pesquisa o melhor preço, amanhã essa tarefa poderá ser relegada ao agente de IA do consumidor, que vai comparar fornecedores, negociar condições, decidir compras rotineiras. O desafio para as marcas será duplo: conquistar a confiança do ser humano e, ao mesmo tempo, tornar-se relevante para algoritmos. Essa é uma mudança muito profunda. O varejo sempre operou em cima da emoção, estética e experiência. Agora, precisa aprender a “dialogar” com as máquinas.

      As lições de quem já começou

      Com base em estudos de casos de diversos clientes do setor varejista que aplicaram estratégias de IA aos negócios, algumas lições se destacam:

      • É essencial colocar foco na experiência do cliente, não apenas na eficiência operacional.
      • É preciso entender que adoção não é automática: algumas pessoas podem precisar de um incentivo maior para utilizar a IA.
      • Startups do setor varejista podem ganhar vantagem competitiva ao criar uma infraestrutura de tecnologia e IA conectada.
      • A adoção bem-sucedida da IA depende tanto da tecnologia quanto do ambiente de trabalho.
      •  Integrar a IA aos processos operacionais e administrativos pode impulsionar a eficiência de custos e acelerar a execução.
      • A IA pode ajudar a integrar o inventário após fusões e aquisições.

      O varejo brasileiro está pronto para essa transformação?

      A questão relevante para o Brasil não é adotar a IA, mas adotá-la com estratégia e maturidade. Ao longo do tempo, o varejo sempre acompanhou o comportamento das pessoas – agora, precisa acompanhar também a evolução das máquinas.

      No fim das contas, a IA não vai transformar o varejo sozinha. Mas a empresa que souber se transformar com a IA continuará relevante em um mundo em que as escolhas serão feitas por máquinas — embora a lealdade, essa sim, continue totalmente humana.

      Fernando Gambôa

      Sócio-líder de Consumo e Varejo

      KPMG in Brazil



      IA na prática

      A experiência do Mercado Livre ilustra como a IA já deixou de ser experimental para assumir o papel de pilar do negócio. Atuando em um ambiente regulatório e operacional complexo, o e-commerce adotou a tecnologia como aceleradora de produtividade e tomada de decisão.

      Mais de 100 processos foram mapeados e analisados com apoio de IA, especialmente em áreas impactadas por mudanças regulatórias, como a Reforma Tributária. Agentes de IA passaram a apoiar equipes financeiras em organização de dados, reconciliações, recomendações e otimização logística.

      O diferencial não está apenas na escala, mas na abordagem: a empresa democratizou o acesso à IA, investiu em capacitação contínua e incorporou a tecnologia ao trabalho de diferentes áreas. O resultado é uma organização mais ágil, colaborativa e preparada para decisões em tempo real. 

      A IA tem transformado empresas globalmente. O seu negócio tem acompanhado esse avanço?