Durante este período, a resposta dos bancos portugueses foi firme e muito positiva, traduzida numa melhoria considerável nos seus rácios de capital e liquidez, e na redução significativa do nível de alavancagem e dos ativos não produtivos. Na sequência do pós-pandemia e da guerra na Ucrânia verificou-se o ressurgimento de inflação, despoletando uma inversão da política monetária e aumento das taxas de juro, contribuindo para uma melhoria muito relevante da rentabilidade do setor nos últimos dois anos. (gráfico 1)
As últimas duas décadas trouxeram desafios profundos em todas as dimensões do negócio bancário. Entre outros marcos, destacam-se (i) a crise financeira global e as respostas no plano regulatório e na política monetária e o consequente período de taxas de juro baixas e até negativas, (ii) a adoção acelerada de novas tecnologias e reestruturação dos modelos de negócio bancário tradicional (eg. pagamentos digitais), e claro (iii) o choque pandémico e os recentes conflitos armados.
Apesar dos bons níveis de solidez e rentabilidade que as instituições apresentaram em 2023, o futuro traz desafios de grande relevância para a sua performance, relevância e resiliência:
- Aumento do risco de crédito, consequência da maior pressão financeira sobre empresas e famílias e que será agravado pela transmissão a Portugal dos riscos e debilidades verificadas em algumas economias europeias (eg. desaceleração da atividade económica na Alemanha e no Reino Unido).
- Maior agressividade concorrencial entre instituições incumbentes e tradicionais, considerando eventos conjunturais (redução verificada nos volumes de crédito e depósitos verificada em 2023 (ver caixa 1)) bem como tendências de longo prazo associadas à transformação da dinâmica de mercado.
- Maior relevância de agentes não tradicionais no mercado das instituições financeiras. Se por um lado os neo banks, fintechs e insurtech continuarão – depois de um período de maior cautela na alocação de capital a estas iniciativas – a aprofundar a sua posição em alguns segmentos de negócio específicos (eg. pagamentos, asset management) e a alargar a sua atuação para outros (eg. mediação e intermediação de crédito e originação de crédito); por outro, espera-se um aprofundar da tendência verificada de transferência de volumes massivos de ativos do setor financeiro para fundos soberanos, fundos de pensões e private equity houses.
- A introdução de uma agenda de sustentabilidade e o papel catalisador que se espera que as instituições financeiras desempenhem na prossecução dos objetivos ESG (Environmental, Social & Governance), através do seu papel de intermediação e alocação de recursos na economia. A introdução pela EBA (European Banking Authority) de guidelines para a gestão de riscos ESG arrastará alterações profundas nas diferentes dimensões dos modelos de negócio dos bancos, muito para além do que é hoje verificado.
- A constante evolução das tecnologias obriga a contínuos e significativos investimentos para assegurar a relevância, qualidade, competitividade e segurança dos serviços das instituições financeiras, bem como a sua eficiência e capacidade de gerir efetivamente os riscos da atividade. A título de exemplo, considere-se a DORA (Digital Operational Resilience Act) que foi recentemente aprovada e entrará em vigor em menos de um ano e a introdução da Artificial Intelligence Act pela União Europeia.
- Atrair e motivar colaboradores é essencial para o rejuvenescimento e renovação dos quadros bancários e com o perfil de competências necessário à execução da estratégia será mais um desafio de enorme exigência para as instituições financeiras num mercado de trabalho que tem sido exportador de talento.
O nível de taxas de juro tende a normalizar e ao setor continuará a ser exigida grande capacidade de inovação e adaptação para que possa responder aos desafios que se colocam num contexto político e económico, global e nacional, ainda marcado por uma enorme incerteza.
Gráfico 1: Evolução das notações de rating da Fitch para alguns dos bancos portugueses
fonte: FITCH
Caixa 1: Redução do volume de financiamento bancário
Com a normalização do cenário de taxas de juro verificou-se (i) uma redução do volume de financiamento bancário, em resultado da menor procura de crédito por parte de clientes e pelo reembolso antecipado de crédito, e (ii) uma redução do volume de depósitos de clientes particulares (primeiro semestre de 2023), resultado da transferência de fundos para certificados de aforro e do reembolso antecipado de crédito. Neste contexto de redução de procura de crédito por famílias e empresas, os bancos têm respondido com uma postura de maior agressividade comercial (gráficos 2, 3 e 4).
Gráfico 2: Evolução do volume de crédito e depósitos de empresas e da Euribor a 12 meses
fonte: Banco de Portugal
Gráfico 3: Evolução do volume de depósitos de particulares e a subscrição líquida de certificados de aforro
fonte: Banco de Portugal, IGCP
Gráfico 4: Evolução do volume de crédito e do spread de crédito à habitação
fonte: Banco de Portugal
Artigo de Rodrigo Lourenço, Partner de Advisory, a 22 de março no ECO.