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      As empresas familiares desempenham um papel central na economia brasileira. A capacidade de construir legados, preservar valores e manter uma visão de longo prazo frequentemente se traduz em negócios resilientes e competitivos. Contudo, em um ambiente marcado por inovação, volatilidade econômica, novas demandas regulatórias e mudanças geracionais, a gestão de riscos tornou-se um elemento indispensável para a sustentabilidade dessas organizações.

      O estudo “KPMG Global Family Business Report” identificou que os negócios familiares reconhecem cada vez mais a necessidade de fortalecer estruturas de governança, profissionalizar a gestão, desenvolver talentos e aperfeiçoar a gestão de riscos para enfrentar os desafios da próxima década.

      O estudo, conduzido com 1.927 líderes empresariais globais em 41 países, aponta que as empresas  familiares estão em um momento decisivo de transformação, no qual a capacidade de antecipar e administrar riscos será um diferencial competitivo. O recorte brasileiro da pesquisa, em que 122 líderes foram ouvidos, traz as mesmas conclusões.

      Os seis riscos que mais afetam as empresas familiares

      Toda empresa está exposta a riscos que podem comprometer resultados estratégicos, operacionais, financeiros e reputacionais. Nas empresas familiares, esse desafio é ainda mais complexo, porque os interesses empresariais frequentemente coexistem com relações emocionais e patrimoniais.

      Entre os principais riscos que atrapalham esse tipo de negócios, destacam-se:

      • Riscos estratégicos, relacionados a decisões de crescimento, sucessão, expansão, diversificação ou investimentos inadequados.
      • Riscos financeiros, decorrentes de estrutura de capital inadequada, endividamento excessivo, concentração de patrimônio ou problemas de liquidez.
      • Riscos operacionais, associados a falhas de processos, controles internos, tecnologia ou cadeia de suprimentos.
      • Riscos regulatórios e de compliance, envolvendo questões tributárias, trabalhistas, ambientais, proteção de dados e requisitos de governança.
      • Riscos cibernéticos, cuja relevância cresce à medida que as empresas aceleram sua transformação digital e a adoção de IA.
      • Riscos reputacionais, capazes de comprometer a confiança de clientes, investidores, profissionais e demais stakeholders.

      Embora esses riscos sejam comuns a diversas organizações, existe uma categoria particularmente relevante no contexto das empresas familiares: os riscos decorrentes das relações familiares.

      Como as relações da família podem afetar a gestão?

      Um dos aspectos mais singulares dessa organização é a presença de membros de uma mesma família ocupando posições de liderança, muitas vezes em diferentes áreas e níveis hierárquicos. Tal característica pode representar uma vantagem quando o propósito, a confiança e a visão de longo prazo se alinham ao legado familiar. No entanto, pode gerar riscos específicos, os quais precisam ser administrados de forma estruturada.

      Conflitos familiares podem migrar para o ambiente corporativo e impactar decisões estratégicas, processos de sucessão, investimentos, política de remuneração e critérios de promoção. Além disso, diferenças entre gerações podem levar a divergências sobre inovação, digitalização e apetite ao risco.

      Também é comum observar situações em que papéis familiares e profissionais não estão claramente definidos. Quando relações de parentesco interferem na cadeia formal de comando, podem surgir dificuldades na prestação de contas, na avaliação de desempenho e na autonomia dos gestores.

      Por essa razão, estruturas de governança bem definidas — como conselhos de administração, conselhos de família, acordos societários e protocolos familiares — são essenciais para a mitigação desses riscos e a preservação da harmonia entre família, patrimônio e negócio.

      A importância da profissionalização

      O estudo da KPMG identifica uma transformação estrutural relevante nas empresas familiares. Globalmente, observa-se uma migração gradual dos modelos de negócios administrados diretamente pela família para estruturas com gestão profissional e supervisão fortalecida por mecanismos de governança.

      No Brasil, essa mudança é ainda mais evidente. Hoje, 48% das empresas familiares operam sob um modelo de gestão predominantemente family run. Entretanto, a expectativa é que esse percentual caia para 8% nos próximos dez anos, refletindo uma forte tendência de profissionalização da gestão e maior separação entre propriedade, governança e administração executiva.

      Essa evolução representa um passo importante para fortalecer a capacidade das empresas familiares de competir em ambientes cada vez mais complexos. Contudo, a profissionalização, por si só, não elimina os riscos. Ao contrário: à medida que as estruturas organizacionais se tornam mais sofisticadas, cresce a necessidade de estabelecer processos formais de identificação, avaliação, monitoramento e resposta aos riscos.

      Então, profissionalizar a gestão não significa contratar executivos externos. O processo exige clareza na distribuição de responsabilidades, critérios claros para a tomada de decisões e mecanismos capazes de assegurar que os riscos sejam considerados na definição e na execução da estratégia.

      Retrato nacional

      Apesar dos avanços, os resultados da pesquisa da KPMG mostram que a gestão de riscos ainda não ocupa o espaço que deveria. Segundo os dados do recorte brasileiro, 22% das famílias empresárias têm uma estrutura abrangente de gestão de riscos, enquanto menos de 20% contam com papéis e responsabilidades definidas para esse gerenciamento. Esses números evidenciam uma lacuna relevante entre a percepção dos desafios futuros e a preparação efetiva para enfrentá-los.

      O próprio estudo conclui que a preparação para riscos não está evoluindo na mesma velocidade em que aumentam as ameaças relacionadas à tecnologia, cibersegurança, sucessão, governança e atração de talentos. A pesquisa destaca a existência de uma lacuna de prontidão para riscos justamente no momento em que as empresas se preparam para uma transformação estrutural. 

      Fernando Lage

      Sócio-líder de Advisory para as regiões do Interior de São Paulo, Centro-Oeste e Sul

      KPMG no Brasil


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      48% operam atualmente sob gestão predominantemente familiar

      Esse percentual deve cair para 8% nos próximos dez anos

      Menos de 20% apresentam papéis e responsabilidades claramente definidos para o gerenciamento de riscos

      Por que a gestão de riscos favorece a longevidade?

      As empresas familiares mais longevas são aquelas que conseguem equilibrar tradição e transformação. Os valores familiares podem continuar sendo uma fonte de vantagem competitiva, desde que sejam sustentados por mecanismos de governança e gestão compatíveis com a complexidade dos negócios atuais.

      Uma gestão de riscos eficiente contribui para a tomada de decisões com maior segurança, protege o patrimônio, fortalece a reputação e amplia a capacidade de adaptação diante das mudanças. Mais do que evitar perdas, seu foco é criar condições para que a empresa cresça de forma sustentável e preserve seu legado para as próximas gerações.

      Em um contexto no qual as empresas familiares brasileiras caminham rapidamente para modelos mais profissionalizados, incorporar a gestão de riscos à estratégia corporativa deixa de ser uma opção e passa a ser um requisito fundamental para a perpetuidade dos negócios.