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      Com a crescente demanda por transparência, governança e responsabilidade socioambiental, o International Sustainability Standards Board (ISSB) publicou, em junho de 2023, as normas IFRS S1 – Requisitos Gerais para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade e IFRS S2 – Divulgação Relacionada ao Clima. As normas marcam um avanço importante na padronização da divulgação de informações financeiras de sustentabilidade, assim como requerem conectividade entre  os relatórios financeiros.

      As novas exigências não alteram as normas contábeis vigentes nem requerem a criação de estrutura formais de governança. Porém, ao estabelecerem um padrão global de divulgação baseado em riscos e oportunidades de sustentabilidade, as IFRS S1 e S2 demandam maior alinhamento entre áreas técnicas, aprimoramento na qualidade dos dados utilizados e consistência entre premissas financeiras e climáticas, o que pode levar as organizações a revisitar processos internos, estimativas sensíveis e mecanismos de reporte.

      No contexto brasileiro, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) aprovou, em 2024, as NBC TDS 01 e NBC TDS 02, que incorporam integralmente os requisitos das IFRS S1 e IFRS S2. Com isso, entidades brasileiras que seguem normas profissionais passam a observar os mesmos princípios de reporte definidos pelo ISSB, reforçando a convergência regulatória e ampliando as exigências de transparência e qualidade das divulgações.

      O que são as normas IFRS S1 e IFRS S2?

      As normas IFRS S1 e S2 representam o primeiro conjunto de requerimentos de reporte de sustentabilidade desenvolvidos pelo ISSB, com base em frameworks consolidados como o TCFD (Task Force on Climate-Related Financial Disclosures) e o SASB (Sustainability Accounting Standards Board), além de inputs adicionais de outras estruturas, como o CDSB (Climate Disclosure Standards Board).

      • IFRS S1 estabelece os requisitos gerais para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, abordando riscos e oportunidades que afetam a posição financeira, o desempenho e os fluxos de caixa da entidade. A norma exige que as divulgação sejam:
        • comparáveis, verificáveis, tempestivas e compreensíveis;
        • Conectadas com seus relatórios financeiros para fins gerais;
        • Focada em informações materiais de sustentabilidade que possam influenciar as decisões dos principais usuários de relatórios financeiros.
      • IFRS S2, por sua vez, foca especificamente em riscos e oportunidades relacionados ao clima, exigindo divulgações estruturadas em quatro pilares:
        • Governança: descrever supervisão e responsabilidades da administração sobre riscos e oportunidades climáticas;
        • Estratégia: explicar como riscos e oportunidades climáticas afetam o modelo de negócios, a estratégia e a resiliência da entidade;
        • Gestão de riscos: apresentar processos de identificação, avaliação e mitigação de riscos relacionados ao clima;
        • Métricas e metas: divulgar indicadores, metas e desempenho, incluindo emissões de GEE (escopos 1, 2 e 3).

      Ambas as normas têm como base o conceito de "enterprise value" — valor para os investidores — e incorporam conceitos e princípios utilizados pelas IFRS contábeis, promovendo uma abordagem integrada de reporte corporativo.

      Enquadramento normativo e convergência com as IFRS

      Embora não façam parte diretamente do conjunto de normas contábeis tradicionais emitidas pelo International Accounting Standards Board (IASB) – órgão responsável pela emissão das IFRS - as IFRS S1 e S2 foram elaboradas para manter consistência conceitual e coerência com as IFRS contábeis, de modo a integrar a divulgação de sustentabilidade ao mesmo ecossistema normativo da IFRS Foundation.

      Além disso, a materialidade nas IFRS S1 e S2 está alinhada ao conceito utilizado no International Accounting Standard (IAS) 1, reforçando o entendimento de que informações relacionadas à sustentabilidade, quando relevantes para os fluxos de caixa futuros ou avaliação do risco, devem ser incorporadas ao processo decisório contábil.

      A compatibilidade com os princípios contábeis também é evidenciada na exigência de coerência temporal e estrutural entre os relatórios de sustentabilidade e as demonstrações financeiras, incluindo:

      • Uso do mesmo período das demonstrações financeiras relevantes;
      • Aplicação das mesmas entidades consolidadas nas demonstrações financeiras;
      • Consistência entre premissas utilizadas (ex: taxa de desconto, expectativas macroeconômicas, projeções climáticas e financeiras).

      Conectividade com a contabilidade

      A adoção das normas IFRS S1 e S2 traz reflexões relevantes para a prática contábil e de reporte corporativo:

      • Integração entre relatórios financeiros e de sustentabilidade: as áreas de contabilidade e sustentabilidade precisam atuar de forma coordenada para garantir alinhamento entre premissas, estimativas e riscos divulgados.
      • Revisão de estimativas contábeis sensíveis a fatores ambientais, como:
        • Vida útil de ativos de longo prazo;
        • Testes de imparidade com base em fluxos de caixa futuros;
        • Provisões para descomissionamento, remediação ambiental ou passivos regulatórios vinculados a riscos de sustentabilidade.
      • Exigência de controles internos robustos, especialmente sobre a qualidade dos dados climáticos, ambientais e sociais utilizados para reporte e análise de riscos.
      • Reflexo em julgamentos contábeis relevantes, como decisões de mensuração ao valor justo (IFRS 13), reconhecimento de contingências (IAS 37) e contratos de longo prazo (IFRS 15), considerando impactos de riscos e oportunidades de sustentabilidade.

      Além disso, as normas abrem espaço para questionamentos por auditores, reguladores e investidores em casos de inconsistência entre riscos climáticos divulgados e as práticas contábeis adotadas.

      Cuidados e pontos de atenção para as empresas

      A transição para um reporte em conformidade com o ISSB exige preparação estratégica e ações integradas entre áreas técnicas e de governança. Algumas recomendações incluem:

      • Mapear riscos e oportunidades ESG com impacto financeiro e priorizar aqueles com maior relevância para o modelo de negócios;
      • Revisar premissas utilizadas em testes de recuperabilidade, avaliação de ativos e passivos e mensuração de provisões, para compreender o nível de alinhamento com os cenários utilizados no IFRS S2;
      • Desenvolver processos de coleta, validação e monitoramento de dados ESG, com rastreabilidade, confiabilidade e consistência auditável;
      • Capacitar as equipes contábil, financeira e de sustentabilidade, promovendo uma visão integrada de risco e performance;
      • Estabelecer uma governança clara para reporte ESG, com definição de responsabilidades, periodicidade de revisão e interlocução com o comitê de auditoria e o conselho.

      Esses cuidados são essenciais para garantir conformidade, transparência e credibilidade nas divulgações.

      Conclusão

      As normas IFRS S1 e S2 inauguram uma nova fase para a sustentabilidade corporativa, com forte ênfase na materialidade financeira e na integração com o reporte contábil. A partir de 2024, muitas jurisdições iniciaram a recomendar ou exigir a adoção dessas normas, tornando essencial que as organizações se antecipem e se preparem tecnicamente.

      Ao conectar sustentabilidade à geração de valor, as IFRS S1 e S2 não apenas ampliam a visão de riscos e oportunidades, como também consolidam a sustentabilidade como parte integrante da estratégia corporativa, da gestão de riscos e da governança financeira.

      Entre em contato com o nosso time para entender como preparar sua empresa para os impactos das IFRS S1 e S2 e fortalecer a integração entre sustentabilidade e reporte financeiro.

      Nossos profissionais auxiliam os clientes com a conformidade e organização dos processos de preparação dos relatórios financeiros.

      Magnus Chaib

      Sócio-líder da área de Finance & Accounting Advisory Services - F&A

      KPMG no Brasil

      Victor Gomes Araújo

      Gerente Sênior da área de Finance & Accounting Advisory Services - F&A

      KPMG no Brasil

      Jaqueline Feijó Lima Lopes
      Jaqueline Feijó Lima Lopes

      Gerente da área de Finance & Accounting Advisory Services - F&A

      KPMG no Brasil

      Josué da Silva Pinto
      Josué da Silva Pinto

      Gerente da área de Finance & Accounting Advisory Services - F&A

      KPMG no Brasil