Destaques
Introdução
Praticamente um terço dos brasileiros sofreu algum tipo de assédio nos últimos 12 meses. A maior parte (44%) foi vítima de assédio moral ou psicológico e 38% optaram por não fazer denúncia.
Essas e outras constatações fazem parte da Pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2025, elaborada pela KPMG. O levantamento, realizado entre 1º de outubro e 4 de novembro de 2025, contou com 1.365 respondentes, número 2,5 vezes maior do que o registrado no estudo anterior.
Os casos se distribuem por diferentes espaços: 19% em áreas abertas, 16% em ambientes de trabalho e 10% no transporte público.
Os dados evidenciam que o enfrentamento do assédio exige atenção constante das organizações e políticas estruturadas de prevenção e resposta.
31% sofreram assédio nos últimos 12 meses.
44% relataram assédio moral ou psicológico.
Discriminação de gênero (15%) e assédio sexual (14%) também aparecem com destaque.
Por que a subnotificação ainda é tão expressiva?
A edição 2025 da pesquisa revela que existe subnotificação e indica que seria positivo investir mais em canais de denúncia que fizessem as vítimas se sentirem seguras para buscar ajuda.
Entre as pessoas que sofreram assédio:
- 38% não reportaram a ocorrência.
- 58% não se sentiram seguras ao denunciar.
- 57% não receberam retorno dos canais formais, fator que compromete a confiança institucional.
As razões para não denunciar incluem:
- Medo ou insegurança física/psicológica (25%).
- Receio de exposição (24%).
- Ausência de um canal visível (19%).
- Medo de retaliação (16%).
- Descrença na investigação (9%).
Esses dados revelam um déficit de confiança nas estruturas existentes e mostram a necessidade urgente de mecanismos independentes, acessíveis e acolhedores.
Quais os impactos da subnotificação?
O acúmulo de episódios não reportados restringe a capacidade das organizações públicas e privadas de identificar riscos e implementar políticas de prevenção. A subnotificação também compromete investigações, incentiva ciclos de silêncio e dificulta a responsabilização.
No setor público, os registros crescem rapidamente. Dados da Controladoria Geral da União (CGU) mostram aumento de 510% nas denúncias em seis anos, passando de 857 casos em 2019 para 5.225 em 2024.
No Judiciário, as ações por assédio sexual cresceram 35% entre 2023 e 2024, somando 33 mil ações nos últimos quatro anos.
Esses números reforçam o alerta da pesquisa: aumentar a confiança nos canais de denúncia é central para quebrar ciclos de violência.
O que a legislação brasileira estabelece sobre assédio?
O Brasil conta com um arcabouço legal robusto:
- Código Penal, art. 216-A: define assédio sexual.
- CLT, art. 146-A: caracteriza assédio moral.
- Lei 14.457/22: reforça a obrigatoriedade de políticas preventivas e ações educativas, especialmente em ambientes profissionais.
Apesar disso, a pesquisa mostra que avanços normativos ainda não se traduziram plenamente em práticas eficazes de acolhimento e resposta.
Como fortalecer prevenção, acolhimento e governança?
A pesquisa aponta caminhos essenciais:
- Políticas internas atualizadas e amplamente comunicadas.
- Canais de denúncia independentes, acessíveis e confidenciais.
- Governança robusta de investigação e resposta.
- Feedback claro e tempestivo às vítimas.
- Treinamentos e ações educativas contínuas.
- Liderança engajada e cultura organizacional baseada na integridade.
Não basta haver normas e leis para proporcionar ambientes seguros. Também é fundamental que haja acolhimento, transparência e responsabilização.
Essa agenda é estratégica tanto para a proteção das pessoas quanto para a mitigação de riscos trabalhistas, reputacionais e operacionais.
O estudo evidencia que o assédio permanece disseminado, subnotificado e amplamente não respondido, mesmo com avanços legais e maior conscientização social.
Prevenir e enfrentar o assédio não é apenas imperativo ético: é parte essencial de uma boa governança, de ambientes organizacionais saudáveis e de um modelo de gestão responsável, íntegro e transparente.