Ao longo de 2025, o cenário de fusões e aquisições (M&A) na América do Sul foi caracterizado por uma combinação de otimismo estratégico e complexidade estrutural que está redefinindo a forma como os investidores abordam a região. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa recente da KPMG com 400 líderes empresariais globais1, a maioria dos quais (62%) acredita que a oportunidade para M&A nessa região nunca foi tão clara, representando um aumento substancial em comparação ao que os executivos afirmavam em 2023.
Esse entusiasmo se traduz em expectativas concretas: 57% preveem aumentar suas atividades de fusões e aquisições em 2026, mesmo em um contexto marcado por tensões políticas, fiscais e regulatórias. As organizações participantes relataram que, embora tenham realizado uma média de 2,9 transações nos últimos dois anos, projetam aumentar esse número para 2,94 nos próximos dois anos. E, ao analisar os segmentos em que as empresas estão divididas, as firmas de private equity se mostram otimistas, pois esperam aumentar seu volume de transações para uma média de 4,26 negócios nos próximos dois anos, com foco em setores de alto crescimento, como tecnologia, energia e serviços financeiros.
Em termos de mercados regionais, o Brasil emerge como o mais robusto da América do Sul, impulsionado tanto pelo seu ecossistema industrial e energético quanto pelo desempenho positivo de sua bolsa de valores. Contudo, as altas taxas de juros continuam a pressionar as avaliações e a complicar a estruturação de preços, forçando os investidores a adotar mecanismos de contingência para mitigar riscos. O Chile, por sua vez, demonstra sinais de estabilidade após a moderação da inflação, embora enfrente novas exigências regulatórias, como leis de privacidade de dados, que podem aumentar a complexidade da due diligence. Por fim, a Argentina passa por um processo de reformas orientadas para o mercado e de disciplina fiscal que têm melhorado a confiança dos investidores, especialmente em setores como mineração e energia, consolidando sua atratividade em um contexto regional heterogêneo.
De modo geral, pode-se afirmar que esses três países concentram as motivações estratégicas mais relevantes dos operadores, que tendem a diferenciar suas abordagens e estratégias de acordo com o mercado, evitando assim uma dependência excessiva de pressupostos regionais.
Apesar do otimismo, os riscos sistêmicos persistem. Sessenta e três por cento dos entrevistados identificaram as recentes mudanças políticas na região e seu impacto nos níveis de incerteza como o principal obstáculo para fusões e aquisições, seguidos pelas tensões comerciais decorrentes das tarifas globais (58%). Além disso, nove em cada dez líderes afirmaram que questões tributárias interromperam uma transação nessa região, sendo os ajustes de avaliação a consequência mais comum. Ao mesmo tempo, os entrevistados indicaram que as áreas mais complexas para a due diligence são as jurídicas (37%), tributárias (35%) e financeiras (35%), destacando a necessidade de assessoria especializada e conhecimento detalhado do ambiente local.
Por fim, a integração pós-fusão surge como o desafio mais subestimado, com apenas 45% das transações recentes considerando sua criação de valor como “boa” ou “excelente”. O alinhamento organizacional e cultural é apontado como o aspecto mais difícil de gerenciar, seguido pela harmonização das estruturas tributárias e jurídicas. A falta inicial de rigor e a ausência de planejamento na fase pós-fusão explicam, em grande parte, por que a criação de valor a longo prazo continua sendo um objetivo difícil de alcançar para muitas organizações.
Diante desse cenário, as empresas estão adotando abordagens holísticas que priorizam modelos de consultoria de ciclo completo (57%) e estruturas de precificação contingente para gerenciar a incerteza. A incorporação de inteligência artificial em fases críticas, como integração e criação de valor, está ganhando força: 77% a utilizam em alguma etapa do ciclo, embora apenas 23% a empreguem para apoiar a due diligence. Essa tendência reflete uma mudança em direção ao uso de capacidades preditivas para aprimorar as respostas a choques de mercado e acelerar a captura de sinergias. Da mesma forma, quase todas as organizações (99%) estão redesenhando suas estruturas de transação para absorver riscos, indicando que estes não são incidentais, mas sistêmicos. As medidas mais comuns incluem a proteção contra exposições regulatórias ou tributárias e o adiamento de pagamentos por meio de precificação contingente — estratégias que buscam equilibrar a volatilidade inerente da região com a necessidade de garantir retornos sustentáveis.
Em conclusão, o estudo revela que a experiência adquirida na América do Sul fortalece a resiliência organizacional diante de ambientes voláteis, traduzindo-se em vantagens competitivas globais. Operar em mercados caracterizados por incerteza cambial, flutuações nas taxas de juros e alta inflação obriga as empresas a desenvolverem capacidades transferíveis que são cruciais em um contexto internacional cada vez mais incerto. Essa dinâmica torna a região um laboratório estratégico para o aprimoramento de habilidades em estruturação de transações, gestão de riscos e planejamento — competências altamente valorizadas em mercados desenvolvidos. Além dos retornos imediatos, as lições aprendidas com as transações nessa região proporcionam aos investidores a agilidade necessária para navegar em cenários globais complexos, consolidando, assim, um caráter e uma liderança baseados em antecipação e disciplina.
1 Criando Caminhos de Valor: Um roteiro para fusões e aquisições na América Latina. KPMG, novembro de 2025.