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      A proliferação de identidades não humanas — como contas de serviço, cargas de trabalho e agentes de inteligência artificial — transformou silenciosamente o cenário da segurança digital, a ponto de essas entidades já superarem o número de usuários humanos nas empresas. Hoje, esses agentes estão dispersos por toda parte: em ambientes locais, híbridos e na nuvem. O grande risco é que eles frequentemente operam com permissões excessivas e, de forma surpreendente, alguns são criados de maneira autônoma por outras próprias identidades não humanas. Diante desse ecossistema efêmero e altamente dinâmico, os modelos clássicos e estáticos de Gestão de Identidade e Acesso (IAM) tornaram-se insuficientes. Para proteger o negócio e as pessoas, as organizações precisam urgentemente migrar para uma governança adaptativa apoiada por inteligência artificial.

      Para os líderes de tecnologia e segurança, a gestão de identidade mudou drasticamente de figura. Diferente das credenciais de máquinas tradicionais, os novos agentes de IA têm privilégios amplos e mutáveis que os permitem tomar decisões complexas com base em contextos e comandos (prompts). Eles não seguem os padrões previsíveis de scripts antigos ou de automações robóticas de processos (RPA); esses agentes operam de forma análoga aos humanos, iniciando acessos, desenvolvendo códigos e moldando novas infraestruturas virtuais de maneira ininterrupta, 24 horas por dia. Como muitos são criados para tarefas específicas e eliminados logo em seguida, eles agem sob o radar, deixando pouquíssimos rastros para auditoria.

      Essa natureza transitória e invisível traz riscos muito concretos. De acordo com o estudo “Acesso invisível, riscos visíveis”, da KPMG, identidades não humanas comprometidas já são protagonistas em grandes violações cibernéticas, um perigo potencializado pela IA agêntica, que manipula credenciais sem qualquer intervenção humana. O reflexo disso se estende por toda a cadeia produtiva, visto que 59% das empresas sofreram violações de dados causadas por terceiros nos últimos 12 meses. Compreensivelmente, essa velocidade gera desconfiança: 61% das empresas americanas ainda não se sentem confortáveis com a total autonomia dos agentes e exigem a presença de supervisão humana nos processos.

      Para retomar o controle e estabelecer uma relação de confiança real entre a tecnologia, os colaboradores e os clientes, a identidade deve ser consolidada como o alicerce absoluto de segurança. O passo inicial e crucial é a descoberta ativa dessas entidades para catalogá-las em um repositório centralizado e mantê-las sob um inventário constantemente atualizado. Como o ritmo das máquinas invalida as aprovações manuais rotineiras, as organizações precisam implementar controles de acesso baseados em políticas e em tempo de execução (runtime). Esses mecanismos monitoram as atividades em tempo real e são capazes de acionar um botão de emergência (kill switch) para interromper um agente individual suspeito imediatamente, sem paralisar a operação como um todo.

      Essa engrenagem de proteção deve ser integralmente construída sob os princípios de Zero Trust (Confiança Zero), tratando qualquer identidade, humana ou não, com o mesmo nível rigoroso de verificação. Isso exige avaliações adaptativas, privilégios mínimos de acesso e o uso estratégico de mecanismos nativos de nuvem e padrões de código aberto (como SPIFFE, SPIRE e OAuth). Da mesma forma, gerenciar o ciclo de vida de certificados digitais (CLM), como X.509 ou JWT, torna-se uma necessidade operacional vital para garantir a autenticação contínua em arquiteturas modernas de microsserviços e sistemas sem servidor (serverless).

      Para modernizar a governança e responder às exigências de auditoria de forma ágil, o caminho é integrar dados de logs e sistemas de orquestração (SIM/SOAR) a soluções avançadas de inteligência. Ferramentas focadas em Detecção e Resposta a Ameaças de Identidade (ITDR) ajudam a conter ataques de forma proativa, enquanto a Gestão da Postura de Segurança (ISPM) aponta falhas de configuração continuamente. No topo dessa pirâmide, plataformas que combinam inteligência e visibilidade unificam toda a telemetria corporativa para gerar insights centrais precisos.

      No final do dia, contudo, o sucesso dessa transformação depende das pessoas e de uma cultura de segurança sólida. Ao demonstrar como a organização protege a identidade de seus colaboradores, cria-se a consciência necessária para fiscalizar o comportamento das máquinas. A segurança não pode operar de forma isolada. Os CISOs devem liderar um esforço conjunto que envolva o gerenciamento de riscos (CRO), a diretoria de dados (CDO) e o setor jurídico, desenhando um framework de IA verdadeiramente confiável. Existe hoje uma janela estreita de oportunidade para incorporar a segurança desde a concepção (security by design) antes que os sistemas agênticos se tornem incontroláveis. Agir agora, mapeando identidades, adotando o Zero Trust e mantendo a liderança humana nas decisões estratégicas, é a única forma de colher os benefícios da inovação tecnológica sem renunciar à proteção e da integridade do negócio.

      Daniel Pacheco

      Sócio-líder de Consultoria em Tecnologia

      KPMG no Brasil


      Ricardo Moraes
      Ricardo Moraes

      Sócio-líder de Segurança Cibernética

      KPMG no Brasil


      Em novo reconhecimento da IDC, KPMG sobressai por atuação em serviços de segurança, confiança, cibersegurança, riscos e resiliência.