- Quais são os principais usos esperados para as stablecoins?
- Como devem funcionar o lastro e a custódia?
- Qual modelo de governança é o mais adequado?
- Como as stablecoins devem ser integradas à infraestrutura financeira?
- Quais são os principais riscos associados às stablecoins?
- Qual será o papel das stablecoins no sistema financeiro brasileiro?
- Quais tendências devem marcar os próximos três anos?
- Como as novas regras do Banco Central afetam o mercado?
- A regulação pode criar oportunidades para novos emissores?
As stablecoins vêm se consolidando como uma das principais conexões entre o sistema financeiro tradicional e o ecossistema de ativos virtuais. Vinculadas a ativos de baixa volatilidade, como moedas fiduciárias ou títulos públicos, elas têm sido utilizadas em pagamentos, liquidações financeiras, gestão de liquidez, operações de câmbio e outras aplicações.
Para compreender como o mercado brasileiro avalia a evolução dessas soluções, a KPMG e a ABCripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia) realizaram a Pesquisa Stablecoins: uma visão do mercado sobre modelos de emissão, governança e regulação. O estudo reúne percepções de emissores potenciais e de outros participantes do ecossistema sobre proposta de valor, modelos de negócio e operacional, estratégia, relação com uma moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês) e novas regras do Banco Central.
Destaques
Quais são os principais usos esperados para as stablecoins?
As transações internacionais, que foram mencionadas por um terço dos participantes (33%), aparecem como a principal proposta de valor de uma stablecoin. A integração com serviços financeiros digitais e a oferta de liquidez para empresas receberam 20% das respostas cada uma. Pagamentos foram apontados por 13%, enquanto dinheiro digital e múltiplas finalidades registraram 7% cada.
As empresas são consideradas o principal público-alvo dessas soluções, com 34% das respostas. Instituições financeiras, consumidores em geral e comerciantes e prestadores de serviço aparecem empatados, com 22% cada.
Os resultados indicam que o mercado considera as stablecoins especialmente relevantes para transações corporativas, liquidações internacionais e integração entre serviços financeiros tradicionais e digitais.
Como devem funcionar o lastro e a custódia?
Para 67% dos participantes, o modelo ideal de emissão deve contar com lastro de 100% em reservas de dinheiro ou títulos públicos. Outros 22% preferem uma composição entre reservas em dinheiro, títulos públicos e outros ativos financeiros, enquanto 11% admitem diferentes tipos de lastro, desde que sejam utilizados modelos estáveis, auditáveis e sólidos.
Em relação à custódia, 38% defendem que os ativos de reserva sejam mantidos em instituições financeiras reguladas. A custódia direta no Banco Central aparece com 26%, enquanto outras alternativas receberam 12% cada.
A realização de auditorias independentes sobre os ativos mantidos como lastro foi apoiada por todos os participantes.
Qual modelo de governança é o mais adequado?
A governança centralizada, com decisões tomadas pela instituição emissora e sujeitas a regras internas e à supervisão regulatória, foi o modelo escolhido por 89% dos entrevistados. Os outros 11% preferem um conselho de governança independente, formado por especialistas, auditores e representantes do ecossistema.
Além disso, 80% acreditam que a instituição emissora deve contar com algum selo de certificação. A pesquisa demonstra que transparência, responsabilização e supervisão são consideradas condições centrais para a credibilidade das stablecoins.
Os participantes também destacaram a importância de uma comunicação formal e previsível sobre mudanças na política de emissão ou de resgate. Para 63%, essas alterações devem ser informadas por comunicado oficial em canais digitais; 25% preferem a publicação em relatórios periódicos; e 12% optaram pela combinação dos dois formatos.
Como as stablecoins devem ser integradas à infraestrutura financeira?
A integração direta com o sistema bancário, permitindo depósitos e saques em contas tradicionais, é o modelo preferido por 39% dos participantes. A conexão com arranjos de pagamento e o uso de APIs por empresas receberam 22% cada uma. Outros 17% apontaram a conexão com câmaras de compensação e sistemas de liquidação.
Na escolha da rede blockchain, segurança, previsibilidade operacional, interoperabilidade, baixo custo, liquidez e integração institucional aparecem como critérios fundamentais.
A expectativa é que a infraestrutura seja multirrede, utilizando redes públicas consolidadas e alternativas institucionais para combinar confiança, escalabilidade, velocidade e eficiência.
Quais são os principais riscos associados às stablecoins?
Os riscos de liquidez e regulatório lideram as preocupações, com 33% das respostas cada um. Em seguida aparecem o risco operacional e tecnológico, com 18%, e os riscos de governança e de contraparte do emissor, ambos com 8%.
Para mitigar essas exposições, os participantes defendem políticas claras de resgate, reservas segregadas, auditorias independentes, mecanismos de segurança cibernética, governança robusta e acompanhamento contínuo das regras.
A divulgação de relatórios detalhados sobre as reservas, incluindo sua composição, liquidez e localização, é considerada o principal indicador de transparência por 70% dos entrevistados. Auditorias independentes periódicas, com verificação de saldos, controles internos e aderência regulatória, foram escolhidas por 30%.
Qual será o papel das stablecoins no sistema financeiro brasileiro?
Metade dos participantes considera que as stablecoins funcionarão principalmente como infraestrutura para pagamentos e câmbio internacional. Outros 30% as enxergam como moeda de liquidação, enquanto 20% projetam um uso predominantemente institucional.
No curto e no médio prazo, a expectativa é de que atuem como ponte eficiente entre o sistema financeiro tradicional e os fluxos internacionais, reduzindo custos e prazos em câmbio, liquidações e pagamentos transfronteiriços.
Em um horizonte mais longo, elas podem assumir uma função estrutural como moeda programável, combinável com ativos tokenizados e contratos inteligentes.
Quais tendências devem marcar os próximos três anos?
A formação de um trilho global para pagamentos e câmbio foi apontada por 50% dos entrevistados como a principal tendência para os próximos três anos. A adoção das stablecoins como ativo padrão de liquidação recebeu 25%, o uso principalmente institucional, 15%, e a consolidação regulatória acompanhada de mais transparência, 10%.
O estudo também identificou a possibilidade de consolidação do mercado. Em vez de uma única solução dominante, a expectativa predominante é de convivência entre poucas stablecoins de uso amplo e outras especializadas por finalidade, setor ou contexto regional.
Como as novas regras do Banco Central afetam o mercado?
As novas resoluções do Banco Central foram avaliadas positivamente por 60% dos participantes.
Entre os efeitos destacados estão a definição de regras mais claras, a incorporação das stablecoins ao mercado de câmbio brasileiro, a institucionalização de seu uso e a consolidação e profissionalização do setor. Ao mesmo tempo, exigências rigorosas de reserva, auditoria e autorização podem elevar as barreiras de entrada.
A percepção sobre o impacto das normas na atratividade do Brasil é menos consensual. Para 45%, as regras aumentam a atratividade para a emissão de stablecoins.
A regulação pode criar oportunidades para novos emissores?
Na avaliação de 40% dos participantes, existem oportunidades para emissores que se adaptarem rapidamente às novas regras. Porém, 40% não enxergam essas oportunidades e 20% optaram por não responder.
Entre as possibilidades mencionadas estão a captura do chamado efeito de escassez regulatória, a formação de alianças com bancos e fintechs, o fortalecimento da infraestrutura de câmbio e liquidação e a participação mais ativa na construção dos padrões técnicos e operacionais do mercado.
A capacidade de transformar compliance, tecnologia e governança em diferenciais competitivos pode determinar quais participantes estarão mais bem posicionados para atuar em um mercado de stablecoins mais institucionalizado, transparente e integrado ao sistema financeiro.