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      A corrida pela inteligência artificial entrou em uma nova fase. Se, até pouco tempo atrás, o desafio das empresas era decidir se deveriam investir na tecnologia, hoje, a questão é como transformá-la em resultados reais, com agilidade, segurança e escala. E é nesse ponto que os serviços gerenciados (managed services) consolidam-se como uma estratégia de negócios.

      Essa mudança fica evidente no estudo “Managed Services Outlook Survey 2026”, produzido pela KPMG em colaboração com a International Data Corporation (IDC). O estudo mostra que 91% dos líderes entrevistados afirmam utilizar serviços gerenciados como principal meio para viabilizar a entrega da IA agêntica. Mais do que isso, 87% entendem que esse modelo precisa estar profundamente integrado à estratégia de transformação digital das organizações.

      Os números revelam uma percepção que considero bastante significativa: a vantagem competitiva já não está apenas na aquisição de novas tecnologias, mas na capacidade de operá-las continuamente, atualizá-las e extrair delas valor ao negócio. Em um cenário marcado por mudanças aceleradas, escassez de talentos especializados e crescente complexidade regulatória, poucas empresas conseguem desenvolver internamente todas essas competências.

      IA ainda é desafio

      Outro dado interessante é que 98% dos respondentes reconhecem que implementar IA continua sendo uma tarefa desafiadora. A tecnologia evolui em ritmo muito superior ao das estruturas organizacionais, exigindo conhecimento técnico, governança, segurança cibernética, integração entre sistemas e monitoramento permanente. A IA, por si só, não resolve problemas. Ela precisa estar inserida em processos maduros, orientados por estratégia e sustentados por especialistas capazes de acompanhar sua evolução constante.

      Esse talvez seja o aspecto mais interessante da pesquisa. Durante muitos anos, a terceirização foi vista principalmente como instrumento de redução de custos. Hoje, o conceito de managed services assume outra dimensão. Trata-se de incorporar conhecimento especializado, acelerar a inovação e reduzir o tempo entre a concepção de uma ideia e sua implementação prática. Em outras palavras, terceiriza-se menos a execução e mais a capacidade de inovar.

      Os próprios dados confirmam essa transformação. Segundo a análise, 60% das empresas já utilizam serviços gerenciados de maneira ampla em seus modelos de negócio ou em escala por toda a organização. Além disso, mais de 60% dos entrevistados esperam que, nos próximos dois anos, esse modelo provoque impactos relevantes na transformação dos negócios, na eficiência operacional e nos resultados estratégicos.

      Essa evolução também altera o papel dos prestadores de serviços. O fornecedor deixa de ser apenas um executor de tarefas para se tornar parceiro estratégico da transformação digital. Sua responsabilidade passa a incluir inovação contínua, mitigação de riscos, atualização tecnológica permanente e apoio às decisões empresariais.

      Os modelos de prestação de serviços serão bem-sucedidos pela combinação entre recursos tecnológicos avançados e profissionais capacitados, permitindo que as empresas alcancem seus objetivos mesmo em um ambiente de negócios volátil. A tecnologia, portanto, ganha valor quando vem acompanhada de inteligência humana e visão estratégica.

      Managed Services na prática

      Outro dado chama atenção. Dentre as áreas nas quais os serviços gerenciados já são implementados em escala, destacam-se:

      • Impostos (40%)
      • Segurança cibernética (37%)
      • Governança, risco e compliance (35%).

      Não é coincidência. São justamente funções críticas, sujeitas a mudanças regulatórias constantes, elevado grau de especialização e necessidade permanente de atualização.

      Na prática, estamos assistindo ao surgimento de um novo modelo organizacional. Em vez de concentrarem esforços para construir internamente todas as capacidades tecnológicas, muitas empresas passam a estruturar ecossistemas de parceiros especializados, capazes de fornecer inovação contínua e acompanhar a velocidade das transformações digitais.

      Trata-se de uma mudança de mentalidade. Em um mercado em que a IA evolui quase diariamente, talvez a maior vantagem competitiva não esteja em ter a tecnologia mais sofisticada, mas em desenvolver a capacidade de incorporá-la rapidamente ao negócio, com segurança, governança e foco em resultados.

      A pesquisa da KPMG e da IDC sinaliza exatamente essa direção. A IA continuará redefinindo mercados, profissões e modelos de gestão. Contudo, serão os serviços capazes de conectar tecnologia, estratégia e pessoas que determinarão quais organizações conseguirão transformar inovação em crescimento e quais permanecerão apenas observando a próxima onda tecnológica passar.



      Por Enéas de Lima Bernardo, sócio-líder de Managed Services da KPMG no Brasil.

      Líderes globais apontam que os serviços gerenciados fortalecem a infraestrutura tecnológica.