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      São preocupantes para o mundo e o Brasil os resultados do Índice de Percepção da Corrupção (CPI) da Transparência Internacional, com foco exclusivo no setor público, que classifica 182 países e territórios, em escala de zero (“altamente corrupto”) a 100 (“muito íntegro”). O ranking, divulgado anualmente desde 1995, é construído a partir da consolidação de avaliações de especialistas e executivos de negócios provenientes de múltiplas fontes independentes.

      No recorte global, há deterioração: a média mundial recuou para 42 pontos e mais de dois terços dos países e territórios avaliados permanecem abaixo da marca de 50. Na extremidade superior, destacam-se Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88) e Singapura (84). Na outra ponta, estão Somália e Sudão, ambos com 9 pontos. O próprio CPI ressalta que se trata de um índice de percepção, não constituindo uma contagem direta de casos individuais ou processos judiciais.

      Resultados locais

      O Brasil, com 35 pontos, classificou-se na 107ª posição dentre as 182 nações e territórios avaliados. Em comparação com 2024, houve alta de um ponto, variação que a própria Transparência Internacional descreve como pouco significativa em termos estatísticos, o que sustenta a leitura de estagnação em patamar historicamente baixo. O desempenho do País segue abaixo da média global (42 pontos) e inferior a das Américas (também 42 pontos).

      Considerando a série histórica desde 2012, o Brasil registrou seus melhores resultados em 2012 e 2014 (43 pontos). Desde então, observa‑se uma trajetória de perda de desempenho, com pontuações concentradas majoritariamente na faixa dos 30 pontos nos anos mais recentes. Para o universo corporativo, esse retrato funciona como sinal adicional de risco institucional, reforçando que controles internos, governança, gestão de riscos e programas de integridade permanecem no centro da agenda, sobretudo, em operações com maior exposição a terceiros, contratos públicos, compras, licenciamento e outras interações reguladas.

      Permanecer abaixo da média global de percepção de corrupção é um dado. Porém, qual deve ser a resposta das empresas? Embora tenha foco no setor público, o CPI costuma ser lido como um termômetro do ambiente institucional. Não determina, por si só, o risco de uma organização, mas ajuda a contextualizar porque programas de integridade consistentes deixam de ser apenas “boa prática” e passam a integrar o básico da gestão. A disciplina, em essência, é simples: reduzir a margem para improviso, documentar decisões, criar trilhas de evidência e responder com agilidade quando algo foge do padrão.

      Compliance é fundamental

      Entendemos que os dados do CPI reforçam algo que as empresas vivenciam no dia a dia: integridade não se consolida com iniciativas isoladas. O que muda o jogo é ter um programa de compliance bem-estruturado, proporcional ao risco e, principalmente, aplicado de modo consistente e eficaz.

      Compliance deixou de ser um conjunto de políticas formais e passou a ser um sistema integrado de prevenção, detecção e resposta. A abordagem deve partir da identificação clara dos riscos, definindo prioridades por operação, processo, terceiros e geografia, para que controles deixem de ser meros checklists e se tornem instrumentos efetivos de gestão.

      A efetividade do programa depende de pessoas, governança e liderança. Compliance exige papéis bem definidos, competências adequadas, autonomia e patrocínio real da alta administração, com recursos, estrutura e responsabilização. Políticas e procedimentos continuam sendo a base, mas o diferencial está em sua aplicabilidade, atualização e cumprimento.

      Tecnologia como aliada

      A tecnologia ganha protagonismo ao dar escala à prevenção e à detecção, especialmente em ambientes complexos. Automação, análise de dados e o uso responsável de inteligência artificial ampliam a capacidade de identificar padrões atípicos, priorizar alertas e responder com mais agilidade, sem substituir o julgamento humano. O ciclo completa-se com monitoramento contínuo, testes periódicos, tratamento estruturado de falhas, investigações quando necessárias e canais de reporte que assegurem visibilidade, aprendizado e evolução constante.

      A tecnologia tornou-se parte estrutural do compliance, mas seu valor depende de como é governada. Automação, análise de dados e inteligência artificial, quando aplicadas de modo responsável, com transparência, controles e supervisão ao longo de todo o ciclo de uso, ampliam a prevenção e a detecção e aceleram a resposta a alertas.

      Em um ambiente institucional que segue desafiador, como indica o CPI 2025, o papel das empresas é ainda mais relevante. A permanência do Brasil abaixo da média global enfatiza que integridade, governança e compliance consistentes são fatores críticos de sustentabilidade, resiliência e confiança. Mais do que reagir a riscos, organizações que investem em programas bem- estruturados, aplicados com disciplina e apoiados por liderança e tecnologia responsável, fortalecem sua capacidade de operar, crescer e proteger valor.

      Emerson Melo

      Sócio-líder da prática de GRC, Forensic & Litigation

      KPMG no Brasil


      Thais Mendonça
      Thais Mendonça

      Sócia-diretora de Governance, Risk & Compliance Services

      KPMG no Brasil


      Auxiliamos nos principais níveis de integridade dos negócios, por meio da prevenção, da detecção e da investigação de fraudes.