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      A aprovação da EC 132/2023 representa um novo capítulo para o ambiente de negócios no Brasil. A substituição de cinco tributos sobre o consumo por um IVA Dual — composto pela CBS e pelo IBS — constitui uma mudança estrutural que vai muito além da simplificação fiscal: ela redefine a forma como as empresas organizam suas operações, cadeias de suprimentos e redes logísticas.

      O antigo modelo, que muitas vezes induziu à guerra fiscal e motivou escolhas de localização em razão dos benefícios tributários, dá lugar a um sistema baseado na tributação no destino e na não cumulatividade plena, aproximando o Brasil das práticas globais de tributação do consumo.

      O fim da lógica dos incentivos e seu impacto sobre a cadeia de suprimentos

      Durante décadas, incentivos estaduais e municipais foram determinantes para a escolha de localização de fábricas, centros de distribuição (CDs) e estruturas societárias. Em muitos segmentos, esses benefícios moldaram profundamente as decisões estratégicas das empresas.

      Com a Reforma, essa lógica é substituída por um ambiente em que:

      • O imposto é recolhido onde ocorre o consumo, e não mais onde está a produção;
      • Os créditos tributários passam a ser integralmente recuperáveis ao longo da cadeia, reduzindo distorções;
      • Estruturas societárias e operações fragmentadas perdem justificativa econômica;
      • Decisões de footprint passam a ser guiadas por custos logísticos totais, nível de serviço e proximidade dos mercados consumidores.

      Por que a malha logística tributária se torna crítica

      No novo modelo, a definição da malha logística — localização de plantas, CDs, estoques, rotas e fornecedores — deixa de ser apenas uma questão operacional e torna-se um dos principais determinantes da carga tributária efetiva e da competitividade.

      Os projetos de Malha Logística Tributária ganham relevância ao integrar:

      • Análise de  de cenários combinando custos logísticos e nova carga tributária;
      • Impactos econômicos  da migração dos incentivos atuais até 2033;
      • Simulação da nova lógica de créditos e fluxo financeiro do IVA;
      • Riscos fiscais provenientes da inadimplência de fornecedores (especialmente com o split payment);
      • Avaliação estratégica do footprint para dar prioridade aos mercados de maior consumo;
      • Revisão da estratégia de estoques, armazenagem e lead time.

      Empresas que não revisarem sua malha poderão enfrentar aumento de custos, deterioração de margens, queda de competitividade e ineficiências estruturais de reforma tributária muda o centro de gravidade das decisões financeiras. Para os CFOs, os principais pontos de atenção incluem:

      • Pressão sobre capital de giro
        • A transição para o IVA e o split payment podem alterar profundamente o fluxo de caixa.
        • Empresas com cadeia longa ou fornecedores inadimplentes podem sofrer restrições de crédito tributário e retenção de valores.
      • Reconfiguração do custo total da operação
        • O fim dos incentivos exige recalcular o custo real de produção por localização.
        • Footprints antes vantajosos podem se tornar economicamente inviáveis.
      • Valorização de ativos e decisões de investimento
        • Projetos industriais, expansão de CDs e contratos logísticos devem ser reavaliados sob a nova ótica de tributação no destino.
        • Investimentos feitos sob o paradigma antigo podem não proporcionar o retorno esperado.
      • Impactos no P&L e margens
        • Produtos de cadeias longas tendem a acumular mais créditos, exercendo impactos mais relevantes na composição de margem.
        • O CFO precisará antecipar os efeitos para evitar volatilidade nos resultados.
      • Riscos de compliance e penalidades
        • A convivência dos dois sistemas entre 2026 e 2033 aumenta o risco de erros, inconsistências e autuações.
        • Falhas de aderência podem afetar indicadores financeiros e governança corporativa.
      • Impactos em outras áreas tributárias relevantes
        • Projetos de redesenho de cadeia logística e tributária, realizados no Brasil ou em âmbito regional, têm potencial para impactar outras variáveis financeiras e tributárias relevantes, como o Pillar 2 e o Transfer Pricing.

      O que pode acontecer se a empresa não estiver preparada

      A ausência de planejamento pode gerar efeitos severos e, em muitos casos, irreversíveis:

      • Perda de competitividade

        Empresas concorrentes que adaptarem sua malha logística terão custos menores e maior agilidade.

      • Aumento estrutural dos custos

        Manter operações em locais que deixarão de ser vantajosos pode elevar o custo tributário total por toda a década de transição.

      • Gargalos operacionais e perda de nível de serviço

        Footprints mal posicionados podem alongar prazos, aumentar rupturas e elevar custos de frete e armazenagem.

      • Flutuação indesejada de margens

        Sob as novas regras, a falta de revisão do Demonstrativo de Resultados (P&L, do inglês Profit and Loss Statement) pode gerar volatilidade que impacta bônus, metas e entregas ao mercado.

      • Riscos fiscais ampliados

        Com o split payment e o novo modelo de créditos, falhas de fornecedores podem bloquear créditos e gerar passivos inesperados.

      • Investimentos incorretos

        Empresas podem investir em estruturas que não se sustentam no novo cenário tributário, destruindo valor.


      Sistemas, regimes e compliance

      A partir de 2026, as organizações já terão de lidar com:

      • Alíquotas-teste de CBS e IBS;
      • Novas regras de crédito e compensação;
      • Rastreabilidade ampliada;
      • Manutenção do sistema atual até sua extinção gradual.

      Neste contexto, tornam-se estratégicas:

      • Decisões sobre Simples, Presumido e Lucro Real;
      • Atualização de ERPs, cadastros e parametrizações fiscais;
      • Preparação para apurações paralelas e cruzamento de dados mais rigoroso;
      • Reestruturação de processos de compras, estoque, faturamento e logística.

      Serviços estratégicos e tecnologias inovadoras que ajudam as empresas a enfrentar os desafios dessa jornada de transformação na área de Tax.


      O papel da KPMG

      Na KPMG, observamos que a reforma exige das empresas não apenas ajustes fiscais, mas uma reconfiguração estrutural da cadeia de suprimentos. 

      Nossa abordagem integrada conecta:

      • Análise tributária avançada;
      • Modelagem de negócios e footprint;
      • Analytics e dados massivos;
      • Revisão de processos e estruturas operacionais;
      • Estratégia de longo prazo.

      Com isso, ajudamos a:

      • Redesenhar a malha logística tributária com base em dados;
      • Quantificar impactos da Reforma nos custos totais e no P&L;
      • Orientar decisões de footprint industrial e comercial;
      • Fortalecer a governança fiscal da cadeia de fornecedores;
      • Preparar sistemas e processos para a transição até  2033.

      Conclusão: a hora de agir é agora

      A reforma não é apenas uma mudança legislativa: ela redefine o mapa competitivo do país. E é a cadeia de suprimentos que sentirá seus efeitos de forma mais imediata e profunda.

      Empresas que iniciarem agora seus projetos de malha logística tributária estarão mais bem posicionadas para:

      • Reduzir custos;
      • Evitar riscos;
      • Aproveitar as oportunidades;
      • Construir operações mais eficazes, resilientes e alinhadas à nova lógica de tributação no consumo.

      A preparação não é opcional: é um imperativo estratégico para a próxima década.


      Ericson Amaral é sócio-líder de International Tax, M&A e Transfer Pricing da KPMG no Brasil.

      Juan Padial é sócio-diretor de Supply Chain & Procurement da KPMG no Brasil.

      Luciana Oliveira é sócia-diretora de TAX M&A da KPMG no Brasil.

      Oscar Adorno é gerente sênior de Supply Chain & Procurement da KPMG no Brasil.