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      A 11ª edição do “KPMG 2025 CEO Outlook” confirma algo que já vinha se desenhando nos anos anteriores, mas agora ganha contornos mais evidentes: os CEOs aprenderam a operar em um estado permanente de disrupção. O ambiente geopolítico segue instável, as pressões econômicas continuam significativas e o cenário regulatório mais complexo. 

      Ainda assim, os líderes demonstram um otimismo cauteloso, sustentado por uma agenda de investimento assertiva em tecnologia e talento.

      Mesmo diante da queda de confiança na economia global, 79% dos CEOs acreditam no crescimento de suas próprias organizações. Essa combinação de prudência macroeconômica e confiança nos negócios em um âmbito mais “micro” reflete um fenômeno interessante: as lideranças passaram a enxergar a volatilidade como um elemento estrutural do ambiente de negócios, e não como uma anomalia temporária. O resultado é uma agenda de transformação que mobiliza investimentos simultâneos em IA, requalificação de pessoas, governança e resiliência.

      IA deixa de ser promessa e se torna decisão estratégica

      aceleração da IA é a faceta mais emblemática dessa nova mentalidade. O dado que mais chama atenção é a mudança na expectativa de retorno: 67% dos CEOs esperam capturar valor da IA em até três anos, reduzindo o horizonte que, no ano passado, era de três a cinco anos.

      Isso revela duas interpretações importantes:

      1. A IA deixou de ocupar o terreno da experimentação periférica e passou a integrar o núcleo das estratégias corporativas, com orçamentos consistentes — 69% dos líderes destinam entre 10% e 20% de seus budgets para IA.

      2. A ascensão dos sistemas agênticos ampliou a percepção de valor, criando ganhos mensuráveis e mais acessíveis do que os ciclos de inovação anteriores.

      O entusiasmo, no entanto, vem acompanhado de sobriedade. Enquanto 74% dos CEOs dizem que suas organizações conseguem acompanhar a evolução da tecnologia, 50% afirmam que a falta de regulação adequada ainda é um obstáculo crítico. 

      Talento: o novo campo de batalha competitivo

      A outra peça-chave dessa agenda é o capital humano. A adoção de IA depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade das organizações de requalificar sua força de trabalho e atrair especialistas capazes de extrair valor do novo ecossistema digital.

      É por isso que 77% dos CEOs afirmam que a prontidão da força de trabalho impactará diretamente a prosperidade de suas empresas. Retenção, recapacitação e atração de talentos especializados em IA tornaram-se prioridades centrais. E, como seria de esperar em ciclos de inovação disruptiva, a competição se intensificou: 70% dos participantes da pesquisa reconhecem que a disputa por talentos pode limitar seu sucesso.

      Resiliência como competência central de liderança

      O estudo também evidencia que, diante da pressão por performance em ambientes incertos, os CEOs estão reformulando as competências essenciais de liderança. Agilidade na tomada de decisão, transparência e capacidade de gerenciar riscos emergem como atributos valorizados.

      Não é coincidência que a resiliência apareça como elemento estruturante dessa nova fase. A maioria dos CEOs já ajustou suas estratégias de crescimento e quase todos reconhecem que operar em um ciclo contínuo de tensões geopolíticas, riscos cibernéticos etc. exige novas respostas, inclusive no desenho das estruturas e na priorização dos investimentos.

      Nesse sentido, o uso assertivo da tecnologia, os talentos certos, a governança e até a realização de fusões e aquisições (M&A) são apontados como instrumentos estratégicos eficazes para enfrentar riscos estruturais e identificar oportunidades. O crescimento passa a ser entendido como consequência de escolhas precisas e disciplina constante.

      ESG volta ao centro da estratégia – agora, com mais maturidade

      O estudo deste ano também revela uma inflexão importante: a confiança dos líderes em atingir metas de sustentabilidade aumentou significativamente, com 61% dos respondentes afirmando estar “no caminho certo para atingir neutralidade de carbono até 2030”. Esse dado aponta uma evolução marcante em relação ao ano anterior.

      Mais do que um compromisso reputacional, a agenda ESG se consolidou como um componente direto de competitividade. Os principais desafios passaram a ser tratados com mais realismo e priorização. Não por acaso, a IA se torna um catalisador dessa agenda, apoiando qualidade de dados, monitoramento, eficiência energética e redução de emissões.

      Um novo pacto entre tecnologia, talento e propósito

      A leitura combinada de todos esses dados sugere que estamos diante de um ponto de maturidade importante. A disrupção deixou de assustar e passou a orientar as decisões de investimento. A IA se tornou um divisor de águas. A disputa por talentos especializados ganhou status de tema geopolítico. E o ESG deixou de ser tratado como anexo para se tornar parte do core estratégico.

      Em meio à volatilidade, surge uma mensagem clara: as empresas que investirem de forma simultânea em tecnologia, pessoas e governança serão as protagonistas do próximo ciclo de crescimento. Não se trata de escolher entre inovação ou prudência, mas de equilibrar ambas com rigor, ambição e clareza estratégica.

      Em resumo, a volatilidade permanece, mas a era da resiliência inteligente já começou. O caminho para alcançar o crescimento sustentável está cada vez mais claro e depende de escolhas técnicas, estruturais e consistentes. 

      Charles Krieck

      Presidente

      KPMG in Brazil