O mundo começa a estruturar uma corrida silenciosa pela liderança desse mercado. União Europeia, Estados Unidos, Singapura e outros mercados vêm estruturando mandatos, incentivos econômicos e mecanismos comerciais para estimular a produção e assegurar acesso futuro ao SAF e às matérias-primas necessárias para produzi-lo. Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular.
Poucas economias combinam disponibilidade de biomassa, experiência acumulada em biocombustíveis, agricultura competitiva, conhecimento tecnológico e capacidade de expansão sustentável em uma escala comparável à brasileira. Estimativas recentes da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) indicam que o potencial brasileiro de matérias-primas poderia suportar a produção de cerca de 60 milhões de toneladas de SAF em 2050.
Mais importante do que dimensionar quanto SAF o Brasil poderá produzir, é entender quanto valor dessa nova cadeia seremos capazes de gerar e capturar no país.
A pergunta pode parecer simples, mas remete a um dilema recorrente na história econômica da América Latina. A região, frequentemente, participa de diversas cadeias globais como fornecedor de recursos naturais, enquanto parcelas relevantes do valor associado a transformação industrial, tecnologia, certificação, comercialização e financiamento são capturadas em outros mercados. O SAF oferece a oportunidade de construir uma trajetória diferente.
O mercado nasce em um momento em que tecnologias, modelos comerciais, padrões de sustentabilidade e mecanismos de certificação ainda estão sendo consolidados. A disputa, portanto, não ocorre apenas pela construção de capacidade produtiva. Ocorre também pela capacidade de influenciar e operar a infraestrutura que permitirá ao mercado funcionar.
É justamente nesse aspecto que o avanço regulatório brasileiro ganha relevância. A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu metas de redução de emissões para as operações domésticas de aviação, a partir de 2027. Ao privilegiar a redução efetiva das emissões, em vez de simplesmente estabelecer um percentual volumétrico de mistura, o modelo cria incentivos para rotas tecnológicas e matérias-primas de menor intensidade de carbono.
Ao mesmo tempo, o Brasil avança no debate dos mecanismos como o Book & Claim, que permitem separar o atributo ambiental do SAF de sua localização física. Isso possibilita que o combustível seja utilizado onde a logística for mais eficiente, enquanto seus benefícios ambientais podem ser adquiridos e contabilizados por empresas localizadas em outros pontos da cadeia, desde que existam mecanismos robustos de registro, verificação e prevenção de dupla contagem. Essa arquitetura pode ser, especialmente, relevante para um país de dimensões continentais como o Brasil. Mas seria um erro imaginar que o avanço regulatório, por si só, será suficiente para assegurar competitividade.
A verdadeira disputa ocorrerá em torno do controle dos fatores estruturais que determinarão quem será capaz de produzir em escala, competir globalmente e capturar valor nessa nova cadeia. O primeiro deles é o acesso sustentável ao feedstock. Em um mercado de demanda crescente, a capacidade de originar matérias-primas competitivas, certificadas e com baixa intensidade de carbono, pode se tornar tão estratégica quanto a capacidade de refino.
O segundo é a financiabilidade dos projetos. Ainda hoje, o diferencial de custo entre SAF e combustível convencional torna a previsibilidade regulatória, contratos de longo prazo, mecanismos de compartilhamento de risco e acesso a capital elementos decisivos para novas decisões de investimento. O terceiro é a infraestrutura de confiança. Quanto mais global e complexa se torna a cadeia, maior a necessidade de demonstrar origem, intensidade de carbono, sustentabilidade e cadeia de custódia das matérias-primas e dos combustíveis produzidos.