Pular para o conteúdo principal

      A transformação empresarial entrou em uma nova fase. À medida que a inteligência artificial (IA) passa a integrar as decisões, os fluxos de trabalho e a geração de valor, as organizações precisam ir além de iniciativas isoladas e desenvolver a capacidade de executar, escalar e sustentar mudanças contínuas.

      A publicação Transforming the Enterprise, produzida pela KPMG, mostra que a transformação já está disseminada: globalmente, 99% das organizações pesquisadas estão passando por esse processo. No Brasil, o percentual chega a 100%.

      No entanto, os resultados ainda são desiguais. Menos de uma em cada três organizações, tanto no recorte global quanto no brasileiro, afirma alcançar impacto significativo em toda a empresa.

      A pesquisa ouviu mais de 1.750 líderes seniores de transformação de 20 países e territórios, incluindo 77 profissionais atuantes no Brasil. O levantamento foi realizado em fevereiro de 2026.

      Quantas iniciativas de transformação as empresas conduzem simultaneamente?

      Globalmente, as organizações conduzem, em média, 3,5 iniciativas simultâneas de transformação. No Brasil, a média é de três.

      Apesar do volume de investimentos e projetos em andamento, apenas 14% das organizações globais consideram-se de alto desempenho em comparação com seus pares. Entre as brasileiras, a proporção é um pouco maior: 17%.

      Os dados indicam que o diferencial não está apenas na quantidade de iniciativas, mas na capacidade de coordená-las. A transformação gera melhores resultados quando prioridades, investimentos, tecnologia, operações, força de trabalho e governança funcionam como partes de um mesmo sistema empresarial.

      Como as empresas brasileiras estão incorporando a IA?

      A adoção da IA avança mais rapidamente do que o valor gerado para a empresa. No levantamento global, entre 47% e 60% das organizações relatam uso amplo da tecnologia em diferentes aplicações, enquanto entre 19% e 27% afirmam que ela está plenamente incorporada às operações.

      No Brasil, 57% relatam uso intenso ou plenamente integrado da IA e 34% afirmam que a tecnologia já está totalmente incorporada às operações. Esse resultado coloca as organizações brasileiras em uma posição relativamente avançada na integração da IA às atividades centrais.

      A conversão dessa adoção em ganhos de produtividade, contudo, ainda representa um desafio. Globalmente, 48% relatam melhorias significativas de produtividade decorrentes da IA, ante 30% no Brasil. A diferença é ainda mais expressiva quando se consideram ganhos substanciais: 11% no cenário global e apenas 4% no brasileiro.

      Esses dados permitem inferir que a ampliação do uso da IA não basta para garantir impacto empresarial. Para gerar valor em escala, a tecnologia precisa estar conectada a dados, plataformas, decisões, processos e modelos operacionais concebidos para funcionar de forma integrada.

      A confiança e a governança da IA estão incorporadas às estratégias?

      A confiança é amplamente reconhecida como um diferencial estratégico. Globalmente, 60% dos respondentes consideram a confiança e a governança fatores de diferenciação; no Brasil, são 58%.

      O desafio está em transformar esse reconhecimento em práticas consistentes. Apenas 24% das organizações globais integram proativamente a gestão dos riscos de IA à estratégia e ao ciclo de vida da tecnologia. Entre os brasileiros, o percentual chega a 31%.

      A mensuração dos resultados relacionados à IA confiável também é um pouco mais frequente entre as empresas brasileiras: 30% acompanham resultados operacionais ou de receita associados ao tema, em comparação com 28% globalmente.

      Os números mostram que o Brasil acompanha, e em alguns aspectos até supera, as tendências globais na incorporação da confiança à gestão da IA. Ainda assim, menos de um terço das organizações efetivamente integra riscos, governança e mensuração ao ciclo de vida da tecnologia.

      O que limita a velocidade de execução empresarial?

      A agilidade operacional é reconhecida como vantagem competitiva por 87% dos líderes globais e por 74% dos brasileiros. Entretanto, poucas organizações conseguem transformar essa percepção em velocidade efetiva de execução.

      Apenas 12% das organizações globais conseguem lançar novas iniciativas em menos de três meses. No Brasil, são 9%. Além disso, mais da metade das empresas brasileiras (51%) leva seis meses ou mais para colocar novas iniciativas em prática.

      O descompasso também aparece na preparação das pessoas. Embora 75% dos líderes globais promovam a colaboração entre profissionais e IA, apenas 19% afirmam contar com equipes altamente capacitadas para utilizar essas ferramentas. No Brasil, os percentuais são menores: 61% incentivam essa colaboração e somente 14% consideram suas equipes altamente proficientes no uso da IA.

      A tecnologia, portanto, ainda costuma ser incorporada a funções e processos existentes sem uma reformulação mais ampla da tomada de decisões, das responsabilidades e dos fluxos de trabalho. Para acelerar a execução, será necessário redesenhar a forma como pessoas e sistemas inteligentes atuam em conjunto.

      O que diferencia as organizações líderes em transformação?

      Globalmente, 58% dos respondentes consideram essencial para gerar vantagem competitiva a capacidade de operar de forma integrada em toda a empresa. No Brasil, essa percepção é compartilhada por 38%.

      Além disso, 12% das organizações globais e 8% das brasileiras consideram-se líderes em sua área. Segundo o levantamento global, as empresas que desenvolvem essa competência apresentam uma probabilidade quase nove vezes maior de superar seus pares e três vezes maior de registrar desempenho significativamente superior ao dos concorrentes.

      A capacidade de execução empresarial depende da orquestração das iniciativas de transformação. Isso significa alinhar prioridades, administrar escolhas e compensações entre tecnologia e operações e integrar estratégia, pessoas, governança e modelos operacionais.


      Destaque – dados dos respondentes brasileiros

      • 100% das organizações pesquisadas estão passando por processos de transformação.
      • 3 é a média de iniciativas de transformação conduzidas simultaneamente.
      • 57% relatam uso intenso ou plenamente integrado da IA.
      • 34% afirmam que a IA está plenamente incorporada às operações.
      • 30% registram melhorias significativas de produtividade com a IA.

      Quais são as prioridades para sustentar a transformação empresarial?

      O estudo identifica cinco prioridades estratégicas para converter a mudança em desempenho empresarial sustentado:

      • Reconstruir as bases tecnológicas para a camada inteligente, criando plataformas seguras, resilientes e interoperáveis, capazes de integrar dados, sistemas e modelos de IA.
      • Fortalecer a confiança e a governança para viabilizar a velocidade, incorporando segurança, gestão de riscos e responsabilização às decisões e à execução.
      • Redesenhar os modelos operacionais em torno dos fluxos de valor, conectando estratégia, necessidades dos clientes, operações e tecnologia em um modelo unificado.
      • Redesenhar equipes formadas por pessoas e por IA, preparando os profissionais para atuar com sistemas inteligentes e redefinindo funções, decisões e responsabilidades.
      • Repensar a transformação empresarial como uma orquestração ágil, coordenando continuamente iniciativas, recursos, riscos, controles e escolhas em toda a empresa.

      Os resultados do Brasil mostram avanços relevantes na adoção da IA e na incorporação da confiança à estratégia. Ao mesmo tempo, evidenciam desafios na geração de produtividade, na velocidade de implementação e na preparação dos profissionais.

      Superar essas lacunas será decisivo para que a transformação empresarial deixe de ser um conjunto de iniciativas e se converta em uma capacidade permanente de execução, adaptação e geração de valor.