A aceleração das mudanças tecnológicas e a expansão da superfície de ataque digital posicionam a segurança cibernética como um eixo estrutural para a competitividade empresarial. Nesse contexto, a análise realizada pela KPMG na nova edição do seu estudo “Considerações em Cibersegurança” (KPMG, 2026)1 é particularmente importante, pois permite compreender a evolução da agenda de segurança para 2026 e os anos seguintes, bem como sua relevância para a América do Sul, região caracterizada por assimetrias regulatórias e tecnológicas e por uma crescente exposição a riscos sistêmicos.
Em primeiro lugar, destaca-se como prioridade crítica a preparação da força de trabalho para um ambiente de segurança autônoma. A automação impulsionada pela inteligência artificial (IA) redefine o funcionamento dos Centros de Operações de Segurança (SOCs), deslocando tarefas operacionais para agentes digitais e aumentando a demanda por capacidades analíticas e estratégicas. Na América do Sul, onde existe um déficit estrutural de talentos em segurança cibernética, essa mudança implica não apenas a necessidade de treinamento, mas também a criação de perfis híbridos, capazes de gerenciar sistemas autônomos em contextos com recursos limitados.
Em segundo lugar, a interação entre geopolítica, resiliência e conformidade regulatória introduz uma complexidade adicional. A fragmentação regulatória e as tensões internacionais reconfiguram as cadeias de suprimentos e obrigam as organizações a reavaliar suas dependências tecnológicas. Em nossa região, esse fenômeno pode se traduzir em desafios relacionados à soberania de dados, à dependência de fornecedores globais e à necessidade de adaptar marcos regulatórios ainda incipientes, particularmente em setores críticos, como energia e serviços financeiros.
A terceira consideração, focada na segurança dos sistemas de IA, reflete a crescente importância dessa tecnologia como ativo estratégico, mas também como vetor de riscos. Embora os sistemas de IA possam ampliar as capacidades defensivas, eles também podem ser explorados por agentes mal-intencionados, por meio de automações inovadoras que aumentam a eficácia de seus ataques. Na América do Sul, onde a adoção da IA está crescendo de forma desigual, persistem desafios relacionados à governança, transparência e integração de controles de segurança desde a concepção, especialmente em organizações com menor maturidade digital.
Por isso, em quarto lugar, a governança e a gestão de identidades não humanas se tornam um elemento crucial e estruturante da estratégia de segurança. A proliferação de agentes digitais e de contas automatizadas já supera, em número, as identidades humanas, gerando novas vulnerabilidades relacionadas a acessos privilegiados e à falta de visibilidade. As empresas sul-americanas enfrentam, nesse contexto, uma dupla pressão: de um lado, a adoção de arquiteturas modernas, que aumentam a complexidade da gestão de identidades; de outro, as limitações de capacidade para implementar modelos avançados de governança baseados no conceito de confiança zero (Zero Trust).
A quinta e a sexta considerações abordam a hiperconectividade entre tecnologias de informação e operações (IT/OT) e a transição para a criptografia pós-quântica. Enquanto a hiperconectividade é um fenômeno particularmente relevante em setores intensivos em infraestrutura e amplia a superfície de ataque, expondo vulnerabilidades em ambientes tradicionalmente isolados, a transição para a criptografia pós-quântica representa um desafio de médio prazo devido à potencial obsolescência dos algoritmos criptográficos atuais, o que obrigará as organizações a redefinir seus mecanismos de proteção de dados e comunicações. Na América do Sul, onde setores como energia, mineração e manufatura desempenham papel central, a coexistência de tecnologias legadas e novas plataformas digitais aumenta os riscos e dificulta a implementação de arquiteturas de segurança dinâmicas. Enquanto isso, a transição para novas tecnologias de criptografia enfrenta baixa priorização, competindo com necessidades mais imediatas e ampliando a lacuna de “preparação” em relação às economias mais avançadas.
A sétima e penúltima consideração destaca a crescente complexidade das cadeias produtivas e a necessidade de protegê-las contra potenciais ataques para minimizar os riscos de disrupção. De modo geral, a dependência de múltiplos fornecedores, plataformas e sistemas baseados em IA expande significativamente a superfície de risco das cadeias de suprimentos, sobretudo em uma região como a América do Sul, onde esse desafio é agravado pela menor maturidade na gestão de riscos de terceiros e pela limitada capacidade de monitoramento contínuo, aumentando a exposição a incidentes com impactos em todo o ecossistema.
Por fim, a crescente influência do CISO nos negócios reflete a necessidade de integrar a segurança cibernética à estratégia empresarial. Longe de se limitar a funções técnicas, o papel do CISO evolui para uma atuação mais estratégica, na qual deve ser capaz de articular os riscos tecnológicos aos objetivos do negócio e participar ativamente da tomada de decisões. Na região, essa transformação ainda está em curso, visto que muitas organizações mantêm estruturas tradicionais nas quais a segurança ainda não está totalmente integrada à governança corporativa.
De modo geral, a análise dessas oito considerações permite identificar tendências-chave para a América do Sul. A região enfrenta limitações estruturais que condicionam seu avanço, destacando-se a insuficiência de investimentos em segurança cibernética, a necessidade de estabelecer marcos regulatórios mais homogêneos e o aumento do nível de conscientização sobre os riscos. Esses fatores criam um ambiente em que as organizações tendem a priorizar a continuidade operacional em detrimento da resiliência de longo prazo, aumentando sua vulnerabilidade diante de ameaças cada vez mais sofisticadas. Nesse contexto, é urgente avançar para modelos de segurança cibernética integrados à estratégia de negócios, superando abordagens fragmentadas e, sobretudo, reativas. Da mesma forma, é necessário fortalecer, com urgência, as capacidades locais, tanto em termos de talentos quanto de infraestrutura; e, paralelamente, ampliar a coordenação regional em questões regulatórias para enfrentar desafios comuns, como a soberania dos dados e a proteção das infraestruturas críticas.
Apesar desses desafios, também existem oportunidades significativas. A crescente digitalização de setores estratégicos, o avanço das iniciativas de transformação digital e a adoção progressiva de tecnologias emergentes podem atuar como catalisadores para o fortalecimento da segurança cibernética. Nesse sentido, a integração precoce de princípios de segurança desde a concepção das soluções, aliada à adoção de abordagens baseadas em risco e resiliência, permitirá que as organizações sul-americanas não apenas mitiguem ameaças, mas também construam confiança e vantagem competitiva. Em síntese, a agenda de segurança cibernética para 2026 exige uma evolução das abordagens predominantemente defensivas para modelos estratégicos, nos quais a segurança se consolide como um facilitador da inovação e do crescimento. Para a América do Sul, o desafio consiste em transformar as limitações estruturais em oportunidades de desenvolvimento, caminhando para um ecossistema digital mais seguro, resiliente e confiável.