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      Por muito tempo, os grandes eventos de tecnologia foram dominados por promessas. Novas plataformas, tendências emergentes, conceitos futuristas e previsões a respeito de como a tecnologia transformaria mercados inteiros.

      Mas, no Web Summit Rio 2026, a sensação foi diferente. Por mais que a inteligência artificial (IA) tenha permanecido como o tópico central das conversas, o discurso amadureceu. Em vez de tentar entender o que a IA poderá fazer, especialistas e público voltaram suas atenções para quem está conseguindo transformar IA em resultado concreto.

      Ou seja, em vez de “se”, o foco agora é “como” e “o quanto”.

      Essa mudança de tom ficou evidente. O que se viu foi uma discussão menos centrada em capacidades técnicas e muito mais focada em produtividade, escala, governança, eficiência operacional e geração de valor. Em outras palavras: menos promessas, mais execução.

      Divergências e convergências sobre o futuro da IA

      O contexto ajuda a explicar o novo enfoque. Nas semanas anteriores ao evento, duas das principais vozes do ecossistema de IA apresentaram leituras distintas sobre o momento da tecnologia.

      De um lado, Dario Amodei, CEO da Anthropic, voltou a alertar para a velocidade do avanço da IA e para a necessidade de mecanismos que permitam à sociedade, aos órgãos reguladores e às estruturas de governança acompanharem essa evolução; de outro, Sam Altman, CEO da OpenAI, adotou um tom mais otimista ao reconhecer que os impactos da IA sobre o mercado de trabalho têm sido menos disruptivos do que muitos previam, destacando seu potencial para ampliar produtividade e oportunidades.

      Embora partam de perspectivas diferentes, as duas visões convergem em um ponto: a IA deixou de ser uma tecnologia emergente para se tornar uma força concreta de transformação econômica.

      Foi exatamente essa percepção que apareceu de forma recorrente no Web Summit. No setor financeiro, por exemplo, os debates mostraram que o grande desafio já não está em criar pilotos ou provas de conceito, mas em incorporar IA a processos críticos, com segurança, capacidade de escalar e governança. A vantagem competitiva não será determinada apenas pela qualidade dos modelos utilizados, mas pela capacidade de integrá-los ao núcleo das operações.

      O mesmo raciocínio apareceu em áreas como saúde, desenvolvimento de software, educação e varejo. Em todos esses setores, a IA está deixando de ser vista como uma camada adicional de tecnologia para se tornar parte da infraestrutura operacional dos negócios. Equipes menores conseguem produzir mais. Processos tornam-se mais eficientes. Barreiras técnicas diminuem. O resultado é uma nova dinâmica competitiva, na qual velocidade de aprendizado e capacidade de implementação passam a valer tanto quanto inovação tecnológica.

      Mas talvez o aspecto mais relevante seja que essa transformação não acontece apenas por causa da tecnologia. Ela depende de estratégia, cultura, liderança e pessoas.

      IA deve ser integrada ao negócio

      Ao longo do evento, ficou claro que as empresas mais avançadas são aquelas que enxergam a IA como parte de uma transformação organizacional ampla. É preciso repensar processos, desenvolver novas competências e construir mecanismos de governança capazes de sustentar o crescimento em escala.

      Nesse contexto, ganha força um debate que apareceu em diversos momentos do Web Summit: a formação da força de trabalho do futuro. O impacto da IA não será medido apenas pelo número de tarefas automatizadas, mas pela capacidade de requalificar profissionais para funções que ainda estão surgindo.

      Novas carreiras ligadas à governança de IA, à orquestração de agentes inteligentes, à gestão de dados e à interação homem-máquina já ganham espaço. Ao mesmo tempo, competências como pensamento crítico, capacidade analítica, adaptabilidade e aprendizado contínuo tornam-se cada vez mais valiosas.

      Outro sinal importante veio do fortalecimento do ecossistema brasileiro de inovação. O evento reforçou uma percepção que o País tem talento, criatividade e capacidade empreendedora para ocupar uma posição de destaque na economia digital global. E isso não se limita aos centros tradicionais de inovação. O Nordeste, por exemplo, vem consolidando seu protagonismo por meio da combinação entre universidades, empreendedorismo, políticas de inovação e formação de talentos.

      Talvez essa seja uma das mensagens mais relevantes do evento. A próxima fase da IA não será definida apenas pelos avanços dos grandes modelos ou pelas empresas que desenvolvem a tecnologia. Ela será determinada pela capacidade de organizações de diferentes setores transformarem tecnologia em valor real para clientes, colaboradores e sociedade.

      Uma visão objetiva sobre o uso da IA

      O Web Summit Rio 2026 mostrou que estamos entrando em uma nova etapa. A fase da curiosidade tecnológica está cedendo espaço a uma agenda mais pragmática, orientada por resultados, produtividade e impacto econômico.

      Empresas, executivos, investidores e empreendedores estão superando a fase de “descobrir o potencial da IA”: o verdadeiro desafio agora é transformar esse potencial em crescimento sustentável, eficiência operacional e vantagem competitiva.

      A tecnologia evolui rapidamente. Por isso, o verdadeiro diferencial não está na tecnologia em si, mas na capacidade de executá-la com método, propósito e escala. E, nesse jogo, quem conseguir combinar inovação, governança, cultura e talento terá uma vantagem difícil de replicar. A era da IA já começou. O que está em disputa agora é quem conseguirá capturar seu valor.

      Carolina de Oliveira

      Líder Global de Emerging Giants e Sócia-líder de Private Enterprise

      KPMG no Brasil e na América do Sul


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