Destaques
As propostas para introdução de um novo modelo de Contabilidade de Mitigação de Riscos (Risk Mitigation Accounting - RMA) na IFRS 9 – Instrumentos Financeiros têm como objetivo alinhar, de forma mais efetiva, as demonstrações financeiras às práticas de gerenciamento dinâmico de riscos.
O modelo RMA permitirá que entidades que adotam uma abordagem holística e dinâmica para o gerenciamento do risco de reprecificação de taxas de juros consigam:
- Refletir, de maneira mais adequada, em suas demonstrações financeiras, as estratégias dinâmicas de gerenciamento de riscos aplicadas a carteiras de ativos e passivos; e
- Reduzir as complexidades operacionais decorrentes dos atuais requisitos de contabilização do macro hedge.
Essa mudança é particularmente relevante para bancos e seguradoras, que gerenciam continuamente sua exposição ao risco de reprecificação de taxas de juros decorrente de ativos e passivos financeiros que se alteram ao longo do tempo.
O novo modelo será opcional. Contudo, uma vez finalizadas as propostas, as entidades não poderão mais aplicar a contabilização de hedge nos termos da IAS 39/CPC 38, uma vez que esses requisitos serão revogados. Como alternativa, as entidades poderão aplicar o modelo de RMA e/ou os requisitos gerais de contabilização de hedge previstos na IFRS 9, ou ainda optar por cessar completamente a aplicação do hedge accounting.
Qual é o desafio?
Bancos e seguradoras estão expostos ao risco das taxas de juros, em especial ao risco de reprecificação, que surge quando ativos e passivos financeiros são reprecificados em momentos distintos ou em montantes diferentes, com base em taxas de mercado. No caso dos bancos, esse risco pode gerar volatilidade tanto na receita líquida de juros (Net Interest Income) quanto no valor econômico do patrimônio líquido (Economic Value of Equity).
Para gerenciar esse risco, os bancos frequentemente utilizam derivativos de taxa de juros como instrumentos de mitigação. Entretanto, os ativos e passivos subjacentes são intrinsicamente dinâmicos, uma vez que se alteram continuamente à medida que novos empréstimos são concedidos, depósitos são captados e recursos são tomados.
Os modelos atuais de contabilidade de hedge não foram desenhados para refletir estratégias de gerenciamento de riscos aplicáveis a carteiras dinâmicas de ativos e passivos financeiros. Como consequência, muitas instituições enfrentam complexidades operacionais significativas ao executar, por exemplo:
- Proxy hedging, isto é, a designação de um derivativo em relação a um único ativo ou passivo, ainda que o risco seja efetivamente gerenciado no nível da carteira; ou
- Macro hedge, no qual derivativos são designados em relação a uma carteira de instrumentos pré-pagáveis como proteção de valor justo. Por exemplo, bancos precisam interromper e reiniciar, ou reequilibrar, as operações de hedge com frequência, à medida que os ativos e passivos da carteira de alteram.
Nesses casos, é comum que os bancos precisem interromper, redesignar ou reequilibrar relações de hedge à medida que a composição da carteira se altera. Adicionalmente, os modelos atuais limitam a capacidade das entidades de refletir, nas demonstrações financeiras, como o risco de reprecificação é efetivamente gerenciado e qual o nível de eficácia dessa gestão.
O que está sendo proposto?
O novo modelo foi desenvolvido especificamente para carteiras dinâmicas de ativos e passivos financeiros gerenciadas com base líquida. De acordo com a proposta, a entidade passaria a reconhecer, no balanço patrimonial, o efeito da mitigação do risco de reprecificação por meio de uma rubrica específica denominada “ajuste de mitigação de risco”.
Essa abordagem permitiria fornecer aos usuários das demonstrações financeiras informações mais transparentes sobre o grau em que a entidade atinge seus objetivos de gerenciamento de riscos. Além disso, seriam exigidas novas divulgações, incluindo informações sobre a estratégia de gestão de riscos e de como essa estratégia é aplicada para administrar a exposição ao risco de reprecificação.
A tabela a seguir resume as principais diferenças entre o modelo proposto de Risk Mitigation Accounting (RMA) e os modelos tradicionais de contabilização de hedge previstos na IFRS 9:
Importância do reconhecimento
Em um cenário de cadeias de suprimentos cada vez mais complexas e sob pressão do mercado, que exige cada vez mais eficácia, resiliência e inovação, a capacidade de conectar múltiplos elementos do ecossistema tende a se tornar um diferencial relevante.
O posicionamento da KPMG como líder global no relatório IDC MarketScape indica uma capacidade consistente de apoiar organizações na transformação de supply chain em escala global, com integração entre estratégia, execução e tecnologia.
| RMA (Risk Mitigation Accounting) | Modelo tradicional hedge accounting (cash flow hedge e fair value hedge) | |
|---|---|---|
| Objetivo | Refletir a gestão dinâmica do risco de taxa de juros em base líquida (net repricing risk) | Proteger a variabilidade dos fluxos de caixa futuros ou variações no valor justo de ativos/passivos |
| Tipo de risco | Exclusivamente risco de reprecificação de taxa de juros | Qualquer risco elegível (juros, FX, commodities etc.) |
| Unidade de análise | Exposição líquida (NRRE – Net Repricing Risk Exposure) | Item ou grupo especificamente designado |
| Natureza do portfólio | Carteira aberta, dinâmica e em constante recomposição | Normalmente itens específicos ou grupos fechados |
| Base econômica | Gestão de risco em nível de balanço agregado | Gestão de risco instrumento a instrumento |
| Designação de hedge | Não há relação rígida “objeto de hedge ↔ instrumento de hedge” | Obrigatória e formal |
| Instrumentos de hedge | Derivativos designados + benchmark derivatives (hipotéticos) | Instrumentos financeiros derivativos ou instrumentos financeiros não derivativos elegíveis |
| Teste de eficácia | Avaliação prospectiva da mitigação (com base em benchmark) e reavaliação contínua | Requisitos de efetividade (relação econômica, hedge ratio e dominância do risco de crédito) |
| Mecânica de reconhecimento | Reconhece-se o menor entre: FV do derivativo designado × FV do benchmark (RM Adjustment) | CFH: Parcela eficaz → OCI; ineficaz → resultado FVH: Derivativo e item hedgeado → resultado |
| Inefetividade | Substituída pelo conceito de mitigação efetiva vs excedente | Inefetividade obrigatoriamente reconhecida em resultado |
| Elemento novo no balanço | Risk Mitigation Adjustment (linha específica) | Não existe |
| Apresentação no resultado | Resultado mostra apenas desvios em relação à mitigação perfeita | CFH: volatilidade depende da eficácia do hedge FVH: volatilidade refletida integralmente |
| Tratamento de mudanças inesperadas | Ajuste dinâmico do benchmark e possível RM adjustment excess | Pode exigir rebalanceamento e, em alguns casos, descontinuação |
| Documentação | Risk Management Strategy (RMS) + documentação RMA contínua | Documentação de hedge formal no início e quando alterada |
| Complexidade operacional | Alta (modelagem, ALM, sistemas integrados) | Média |
| Alinhamento com ALM bancário | Muito alto | Limitado |
| Uso típico | Bancos e seguradoras com gestão dinâmica de NII/EVE | CFH: Proteção de fluxos específicos FVH: Proteção de valor justo específico |
| Status normativo | Modelo novo e opcional (ED – 2025/2026) | IFRS 9 vigente |
| Relação com IAS 39 | Substitui definitivamente o macro hedge da IAS 39 | Não aplicável |
Tabela 1 – Comparação entre o modelo de Risk Mitigation Accounting (RMA) e os modelos tradicionais de hedge accounting da IFRS 9
Quais são os potenciais impactos?
O modelo de RMA pode gerar impactos significativos para entidades que gerenciam o risco de taxa de juros de forma dinâmica, incluindo:
- Alterações nas demonstrações financeiras
O padrão de reconhecimento de lucros e prejuízos pode se alterar com a descontinuação dos requisitos de macro hedge previstos no CPC 38/IAS 39. O novo modelo também introduz novas exigências de apresentação e divulgação, como a inclusão de uma linha específica de ajuste de mitigação de risco no balanço patrimonial. - Novas estimativas e julgamentos
A aplicação do modelo pode exigir novas estimativas, julgamentos e premissas, que estarão sujeitos a processos de governança e auditoria. - Novos sistemas, processos e controles
Podem ser necessários novos sistemas, processos e controles para integrar informações de gerenciamento de riscos das áreas de tesouraria e risco com a área contábil, de elaboração e de divulgação das demonstrações financeiras.
Próximos passos – Contribuições até 31 de julho de 2026
As entidades são incentivadas a avaliar as propostas e analisar seus potenciais impactos sobre suas carteiras e atividades de gerenciamento de riscos. Para isso, o IASB convida os interessados a participarem dos testes de campo e a enviar comentários sobre as propostas até 31 de julho de 2026, conforme descrito no Request for Fieldwork.
Para mais detalhes, consulte o nosso guia técnico completo.