Pular para o conteúdo principal

      Durante muito tempo, a rastreabilidade foi tratada como um detalhe técnico, quase burocrático. Hoje, transformou-se em ativo essencial. Num mundo que exige transparência, saber de onde vem cada item que chega ao consumidor e como é produzido, mostrando isso com dados, tornou-se questão central nas discussões sobre cadeias de suprimentos sustentáveis, ágeis e responsivas. Trata-se de uma estratégia de produto que conecta compliance, redução de riscos, inovação, vantagem competitiva e protagonismo socioambiental.

      A lógica é simples, mas poderosa: do campo à mesa, da mina à fábrica, da indústria ao consumidor, cada elo da cadeia de valor precisa estar visível e não apenas uma parte dela ou o fornecedor direto. Onde foi plantada a soja? Em que área foi extraído o minério? Houve desmatamento? Há risco de trabalho análogo à escravidão? A logística cumpre requisitos ambientais? A pegada de carbono foi mensurada?

      O que é rastreabilidade?

      Rastreabilidade é, essencialmente, uma forma de gestão. Permite mapear o mercado, identificar gargalos, antecipar riscos e transformar dados dispersos em inteligência estratégica. Não se trata apenas de registrar o passado, mas de construir análises preditivas com base em informações atuais e históricas. É gestão de risco com base em evidência.  

      Os requisitos que impulsionam essa transformação são claros e relevantes, ou seja, proteção ambiental, direitos humanos, compliance na cadeia de fornecedores, mensuração de carbono, transparência social e ambiental. Esses fatores deixaram o campo da reputação e migraram para o centro das decisões de investimento e crédito. Investidores querem conhecer a origem do produto que financiam. Bancos passam a avaliar a exposição climática da carteira. Consumidores anseiam entender como aquilo que compram foi produzido.

      É nesse contexto que legislações internacionais ganham peso. A União Europeia aprovou regras como o Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), cuja aplicação está prevista para dezembro de 2026, e a Diretiva de Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (CSDDD), que entrou em vigor em 25 de julho de 2024 — apenas alguns exemplos entre diversas outras novas regulações que vêm redefinindo padrões globais de sustentabilidade e comércio.

      Fator decisivo para ingresso em novos mercados

      A rastreabilidade ganha ainda mais importância para o Brasil ante a iminente vigência do Acordo Mercosul-UE. Entretanto, a pressão não vem apenas do velho continente. A expansão de tratados de livre comércio e a integração a cadeias globais a tornam condição para acessar novos mercados. Os setores nos quais o debate está mais aquecido são:

      • Energia, com destaque para biocombustíveis.
      • Consumo e Varejo.
      • Agronegócio, em especial soja, café, carne vermelha, óleo de palma, cacau, borracha e madeira, bem como seus produtos derivados.

      Mas o tema também avança com força nos setores:

      • Automotivo.
      • Infraestrutura.
      • Indústria de transformação.
      • Cosméticos, pois a origem de ingredientes naturais passou a ser fator crítico de reputação e mercado.

      O desafio é imenso: rastrear uma cadeia produtiva que começa em recursos naturais e termina na gôndola do supermercado. É complexo, mas é indispensável. Cabe apurar, com ainda mais precisão, a conformidade ambiental, se os fornecedores cumprem requisitos trabalhistas e se a cadeia de carbono está sendo monitorada.  

      Rastreabilidade inovadora, digital e confiável

      A boa notícia é que a tecnologia tornou isso viável. A inteligência artificial (IA) permite cruzar bases massivas de dados e identificar padrões de risco. O blockchain cria registros imutáveis e auditáveis, que reforçam a confiança na informação. O próximo passo já começa a ser discutido: a tokenização de ativos e produtos, atribuindo identidade digital única a cada lote ou unidade, com histórico rastreável ao longo do ciclo de vida.

      Essa digitalização da cadeia não é apenas ferramenta de controle, é uma preciosa fonte de valor. Empresas que conseguem demonstrar rastreabilidade de ponta a ponta passam a ter ESG mensurável e tangível. Isso melhora o diálogo com investidores, reduz o custo de capital e amplia o acesso a crédito, principalmente em operações vinculadas a desempenho socioambiental.

      Ou seja, a rastreabilidade é a tradução prática do ESG; é o processo em que compromissos são convertidos em métricas e estas se transformam em vantagem competitiva. Não falamos apenas sobre cumprir normas, mas de posicionamento estratégico e de estar apto a competir em um mercado global exigente e complexo, transformando transparência em reputação e valor econômico.

      Afinal, a pergunta que o mercado fará cada vez mais será clara e direta: você sabe, de fato, de onde vem e como é feito o que vende? Quem puder responder com dados confiáveis terá mais êxito. Quem não tiver o que falar precisará dar explicações e enfrentará muitas barreiras. 

      Maurício Godinho

      Sócio-diretor da Aliança com OriginsNext

      KPMG no Brasil


      Marcio Barreto

      Sócio de Risk Advisory e ESG

      KPMG no Brasil


      Rastreabilidade end-to-end da cadeia de suprimentos com transparência, conformidade e inovação.