É interessante notar que 100% das empresas brasileiras entrevistadas no estudo KPMG Global Tech Report 2026 informam ter implementado automação e IA incluindo a agêntica. O levantamento, baseado na percepção de 2.500 executivos de tecnologia de 27 países, incluindo 150 líderes brasileiros, testemunha o advento da Era da Inteligência. Metade das organizações ouvidas para a pesquisa acredita que alcançará níveis avançados de maturidade digital até 2026. No Brasil, essa percepção abrange 51% dos executivos de tecnologia.
O problema é que a ambição parece correr mais do que a execução, o que fica evidente quando se observa a fragmentação das iniciativas de IA. No Brasil, 45% dos executivos afirmam que há múltiplos projetos operando de maneira desconectada. Em vez de plataformas tecnológicas robustas e integradas, muitas empresas ainda mantêm experimentos isolados.
Nesse aspecto, o estudo mostra que os retornos sobre investimento (ROI) em tecnologia variam de modo expressivo conforme o grau de maturidade organizacional. Dentre as empresas classificadas como de alto desempenho, o ROI médio alcança 4,5 vezes o valor aplicado, considerando ganhos de produtividade, redução de custos, melhorias operacionais e geração de receitas. Dentre organizações que adotaram novas tecnologias mais tarde ou de maneira fragmentada, o resultado chega a ser duas vezes menor.
Um aspecto interessante é que os ganhos mais robustos resultam da combinação de múltiplos casos de uso. Nada menos do que 74% das empresas que alcançaram retorno relevante afirmam que ele foi gerado por vários projetos de IA funcionando de modo complementar. Porém, o caminho para chegar a esse estágio não é simples. Um dos obstáculos mais recorrentes identificados pelo estudo é a chamada dívida técnica, definida como o conjunto de sistemas legados, arquiteturas obsoletas e decisões tecnológicas acumuladas ao longo dos anos. No Brasil, 57% dos executivos afirmam que o custo de corrigir esse problema impede ou retarda novos investimentos digitais.
Há, também, o desafio de comunicar o valor da tecnologia. Sessenta por cento dos executivos brasileiros relatam dificuldade em demonstrar para stakeholders o impacto concreto da IA. Eis aí um dilema contemporâneo da transformação digital, considerando que muitas empresas sabem que precisam investir, mas ainda enfrentam dificuldades para traduzir inovação em métricas tangíveis de desempenho.
Ao mesmo tempo, o avanço acelerado da tecnologia cria pressões adicionais sobre as organizações. Em escala global, 69% dos executivos afirmam que, ao tentar inovar rapidamente e reduzir custos, suas empresas acabaram comprometendo fatores críticos, como segurança, escalabilidade, qualidade dos dados ou padronização tecnológica. No Brasil, 58% relatam enfrentar o mesmo problema.
Talvez por isso, a pesquisa mostre que as organizações começam a substituir estratégias rígidas por modelos mais adaptáveis. Globalmente, 78% afirmam utilizar processos estruturados para avaliar e adotar tecnologias emergentes, enquanto no Brasil esse percentual chega a 70%. Nesse contexto, ganha força o conceito da IA agêntica, baseada em agentes autônomos capazes de executar tarefas complexas com mínima intervenção humana. Segundo o estudo, 88% das organizações globais já investem nessa capacidade e 92% acreditam que a habilidade de gerenciar agentes de IA será crítica nos próximos cinco anos. No Brasil, as respostas, respectivamente, são de 81% e 82%.
Diferentemente dos sistemas tradicionais de automação, agentes de IA podem interpretar dados, tomar decisões e executar processos completos. Isso não significa necessariamente substituição massiva de empregos. A pesquisa indica que haverá espaço para profissionais, especialmente em funções estratégicas, analíticas e criativas. Nas organizações de alto desempenho, cerca de 50% da força de trabalho em tecnologia ainda deverá ser composta por humanos em 2027.
Outro ponto relevante é a necessidade de novos perfis profissionais. No Brasil, 82% das empresas afirmam que sua estratégia de talentos já inclui funções nativas de IA, como engenheiros de prompt, especialistas em ética algorítmica e profissionais de machine learning operations. Fica claro que o fator determinante para o sucesso das organizações na Era da Inteligência é a capacidade de integrar inovação, governança, talento humano e estratégia empresarial. Isso também implica mudança cultural profunda, pois o estudo revela que 47% dos profissionais brasileiros sentem-se preteridos pela tecnologia.
Considerando todos os achados do estudo da KPMG, uma conclusão importante é a de que a IA incluindo a agêntica, é uma nova infraestrutura econômica, redefinindo processos, reorganizando cadeias de valor e alterando a lógica da competição empresarial. Porém, o êxito na sua aplicação implica a capacidade de utilizá-la com estratégia, disciplina e visão de longo prazo.