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      A urbanização acelerada, os impactos das mudanças climáticas, as restrições fiscais e o aumento das expectativas sociais têm exposto os limites dos modelos tradicionais de planejamento urbano e de investimento público. Em muitas cidades, grandes volumes de recursos são direcionados para infraestrutura, habitação e serviços públicos, mas os resultados nem sempre correspondem aos objetivos de longo prazo relacionados à habitabilidade, à resiliência e ao desenvolvimento econômico.

      Estes insights são do estudo “Blueprint for livable economies”, realizado por meio de um esforço colaborativo, com base em entrevistas e pesquisas com especialistas de várias partes do mundo.

      Segundo a publicação, o descompasso ocorre, em grande parte, porque os sistemas atuais de planejamento e financiamento urbano são estruturados em torno de projetos isolados e setores independentes. A governança fragmentada, os mecanismos de financiamento compartimentados e os modelos de avaliação excessivamente restritivos dificultam a coordenação entre iniciativas e reduzem o potencial de geração de valor dos investimentos.

      Diante desse cenário, ganha força a ideia de uma abordagem mais integrada para o desenvolvimento urbano, em que a complexidade das cidades seja reconhecida e em que se busque alinhar investimentos, políticas públicas e resultados sociais e econômicos.

      Economias vivas

      O conceito de “economias vivas” propõe justamente essa mudança. Em vez de analisar investimentos urbanos a partir de ativos individuais, passaríamos a priorizar uma visão baseada no território e nos sistemas que estruturam o funcionamento das cidades.

      Essa proposta parte do seguinte pressuposto: cada lugar é resultado de uma série de interações complexas entre infraestrutura, economia, sociedade e ambiente. Portanto, os investimentos devem ser planejados de forma integrada, considerando tanto o retorno financeiro do ativo quanto os impactos combinados que diferentes iniciativas podem gerar ao longo do tempo.

      Nesse contexto, surge o “blueprint para economias vivas”, um modelo de tomada de decisão voltado a líderes públicos, investidores e parceiros institucionais. Seu foco é alinhar os resultados desejados, os caminhos econômicos possíveis e, principalmente, os mecanismos de implementação, que devem ser pensados de modo a transformar ambições estratégicas em entregas concretas.

      Mais do que um conceito teórico, o blueprint busca oferecer uma estrutura prática para orientar ações que contribuam para cidades mais habitáveis, resilientes e economicamente dinâmicas.

      Três dimensões essenciais do desenvolvimento urbano

      O blueprint para economias vivas organiza essa abordagem em três grandes dimensões interligadas: pessoas e lugar; economia; e sistemas.  

      A primeira dimensão está relacionada à qualidade de vida das pessoas e à forma como os espaços urbanos são vivenciados. O objetivo central é melhorar a vida cotidiana nas cidades, fortalecer comunidades e promover a equidade social.

      Entre as áreas de foco estão iniciativas voltadas à qualificação do espaço público, à ampliação da infraestrutura social e ao fortalecimento da segurança e do bem-estar nas comunidades. Também ganham destaque ações voltadas à promoção da inclusão cultural, ao fortalecimento de instituições locais e ao estímulo à participação cidadã no desenvolvimento urbano.

      Para viabilizar esses resultados, são considerados elementos facilitadores como a colaboração entre diferentes órgãos governamentais, o engajamento ativo da população e o uso de plataformas de dados que permitam maior transparência e melhor tomada de decisão.

      A segunda dimensão, ou seja, a economia, aborda os resultados econômicos associados ao desenvolvimento urbano. O intuito é criar economias locais prósperas, resilientes e capazes de gerar oportunidades de forma sustentável.

      Nesse contexto, as estratégias incluem o fortalecimento de pequenas e médias empresas, o desenvolvimento de talentos locais e a diversificação das atividades econômicas.

      A abordagem destaca a importância da transição para modelos econômicos mais sustentáveis, com investimentos em tecnologias limpas e soluções baseadas na natureza. Distritos de inovação, parques tecnológicos e ecossistemas criativos são exemplos de iniciativas que podem contribuir para o dinamismo econômico das cidades quando integrados a estratégias territoriais mais amplas.

      A terceira dimensão do blueprint concentra-se nos sistemas que sustentam o funcionamento das cidades, incluindo infraestrutura, governança e modelos de parceria.

      Nessa camada, o foco está em garantir que os investimentos urbanos sejam apoiados por estruturas institucionais e operacionais capazes de viabilizar sua implementação. Isso inclui planejamento espacial integrado, modernização de redes de infraestrutura e fortalecimento da governança interinstitucional.

      Também são considerados elementos como processos regulatórios mais adaptáveis, mecanismos de financiamento diversificados e modelos de parceria capazes de mobilizar recursos públicos e privados de forma coordenada.

      A adoção de estruturas comuns de dados, sistemas de gestão avançada de ativos e contratos baseados em resultados territoriais são apontados como instrumentos importantes para aprimorar a entrega de projetos e aumentar sua efetividade.

      Habitabilidade como estratégia de desenvolvimento

      Um dos principais argumentos do modelo de economias vivas é que a habitabilidade não deve ser vista apenas como um ideal urbano: ela é um elemento central da estratégia econômica das cidades. Locais que oferecem excelente qualidade de vida tendem a atrair investimentos, inovação e, por consequência, os melhores talentos. Ao mesmo tempo, conseguem fortalecer comunidades e reduzir vulnerabilidades sociais e ambientais.

      Ao integrar resultados sociais, econômicos e sistêmicos em uma mesma estrutura de planejamento, o blueprint busca demonstrar que é possível alinhar crescimento econômico com bem-estar coletivo e sustentabilidade.

      E assim se desenha o caminho para cidades mais resilientes. Em um contexto de mudanças rápidas, as cidades precisam desenvolver novas formas de planejar, investir e entregar resultados. Nesse sentido, o modelo de economias vivas possibilita migrar de uma lógica fragmentada e orientada a projetos isolados para uma abordagem integrada, baseada no território e nos sistemas que estruturam a vida urbana.

      Ao alinhar investimentos, políticas públicas e parcerias em torno de objetivos compartilhados, essa abordagem amplia o potencial de geração de valor das intervenções urbanas e contribui para que cidades se tornem mais resilientes, prósperas e inclusivas.

      Mais do que um novo modelo de planejamento urbano, o blueprint para economias vivas propõe uma mudança de perspectiva: entender o desenvolvimento das cidades como um processo integrado, no qual qualidade de vida, dinamismo econômico e sustentabilidade caminham juntos.

      Tatiana Gruenbaum

      Sócia-diretora líder do segmento de Infraestrutura

      KPMG no Brasil