O ano de 2026 se configura como um ponto de inflexão para as cadeias globais de suprimentos, que continuarão a enfrentar desafios constantes decorrentes da volatilidade econômica, da pressão regulatória e da aceleração tecnológica. De acordo com a análise realizada pela KPMG na publicação “Key trends impacting supply chains in 2026” (“Principais tendências que impactam as cadeias de suprimentos em 2026”)[1], existem seis tendências principais que marcarão a agenda dos líderes: a busca por valor, a integração em estruturas globais de serviços, a escalabilidade da inteligência artificial (IA), a entrada dos agentes de IA nos processos de compras, a adoção de novas métricas estratégicas e a gestão de disrupções comerciais e tarifárias. Essas dinâmicas não apenas transformarão a gestão global das cadeias de suprimentos, como também terão efeitos significativos na América do Sul, região caracterizada por economias emergentes, alta dependência de exportação de commodities e maior vulnerabilidade a choques externos.
A primeira tendência, orientada à criação de valor, implica ir além da resiliência operacional para maximizar o valor do negócio, integrando a experiência do cliente à eficiência interna e à sustentabilidade. Na América do Sul, onde as cadeias de suprimentos frequentemente enfrentam volatilidade cambial e restrições logísticas, a adoção dessa abordagem poderia impulsionar o investimento em experiência do cliente e práticas ESG, especialmente no Agronegócio e na Mineração. As empresas que conseguirem alinhar resiliência com criação de valor obterão uma vantagem competitiva sobre seus concorrentes mundiais.
A segunda tendência aponta para a centralização de funções em estruturas globais de serviços, com o objetivo de padronizar, escalar e aumentar a eficiência, o uso de análises avançadas de dados, a automação e a visibilidade global. Para empresas multinacionais com operações na América do Sul, essa estratégia pode significar a consolidação de processos em polos regionais, permitindo redução de custos e melhoria da governança e da gestão de riscos. No entanto, pequenas e médias empresas (PMEs) locais podem enfrentar barreiras para se integrar a essas plataformas, o que exige políticas de digitalização e capacitação que favoreçam sua inclusão nas cadeias de suprimentos globais.
A terceira tendência centra-se na escalabilidade da inteligência artificial e na criação de ecossistemas conectados que integram finanças, ESG, recursos humanos e CRM, entre outras áreas. Dessa forma, a IA deixará de ser utilizada apenas em projetos-piloto e passará a ser plenamente integrada às plataformas de suprimentos, planejamento e gestão de riscos. Na América do Sul, a adoção em larga escala dependerá da infraestrutura tecnológica e da conectividade. Países com avanços em digitalização, como Argentina, Brasil e Colômbia, poderão liderar essa transição, enquanto outros enfrentarão lacunas significativas. A IA permitirá otimizar previsões de demanda em mercados voláteis e aprimorar a rastreabilidade em cadeias de diversos setores, como o agrícola e o energético, representando uma oportunidade para setores estratégicos.
Em paralelo, a quarta tendência, materializada pela entrada dos agentes de IA nos processos de compras (procurement), buscará transformar as aquisições por meio de agentes autônomos capazes de gerenciar processos completos – da avaliação de fornecedores à execução de contratos. Esse movimento pode redefinir a relação com fornecedores locais, exigindo maior transparência e conformidade regulatória. As empresas sul-americanas precisarão se adaptar a padrões digitais para não serem excluídas das cadeias de suprimentos globais, enquanto a automação tende a reduzir custos de transação, um fator crucial em economias com alta pressão inflacionária.
A quinta e penúltima tendência, relacionada à adoção de novas métricas estratégicas, busca complementar os indicadores tradicionais com métricas que proporcionem visibilidade e dados em tempo real, resiliência e geração de valor, maior precisão nas decisões baseadas em IA e automação, uso de gêmeos digitais, colaboração entre humanos e máquinas, cibersegurança, ESG e orquestração multimodal. Na América do Sul, a mensuração das emissões indiretas (escopo 3) será fundamental para os exportadores em função das regulações europeias e norte-americanas. Além disso, a resiliência a disrupções – como bloqueios portuários ou crises energéticas – tende a se tornar um indicador prioritário. A adoção de métricas digitais exigirá investimentos em Internet das Coisas e sistemas ERP, o que representa um desafio para empresas com recursos limitados.
Por fim, a persistência de tarifas e do protecionismo obrigará as empresas a redesenhar suas estratégias de suprimentos por meio da diversificação de fornecedores, da realocação da produção para países próximos (nearshoring) e da simulação de cenários com apoio de IA. A América do Sul será especialmente sensível a mudanças tarifárias em mercados-chave como China e Estados Unidos. Países como o México e o Brasil podem se beneficiar do nearshoring com a América do Norte, enquanto outros precisarão fortalecer acordos intrarregionais, como o Mercosul (que atualmente avança em um acordo comercial com a União Europeia), para mitigar riscos e garantir a continuidade operacional.
As tendências identificadas não apenas redefinirão a gestão global das cadeias de suprimentos, como também apresentam desafios e oportunidades relevantes para a América do Sul. A região precisa acelerar a digitalização, investir em inteligência artificial e fortalecer sua resiliência para se integrar a ecossistemas globais orientados à gestão de valor total e à sustentabilidade. As empresas que conseguirem se adaptar a essas dinâmicas poderão capitalizar vantagens competitivas em um ambiente marcado por volatilidade e disrupções, enquanto aquelas que permanecerem defasadas enfrentarão riscos crescentes de exclusão dos mercados internacionais.