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      Já faz um tempo que algumas funcionalidades inerentes às ferramentas de inteligência artificial (IA) são exploradas pelos departamentos jurídicos das empresas. No começo, o foco era a automação de tarefas repetitivas, como a triagem de documentos e a revisão de contratos. Agora, porém, a IA está assumindo um papel cada vez mais estratégico.

      A análise “Dos dados ao conhecimento”, realizada pela KPMG com 1.390 tomadores de decisão em oito países e setores, aponta que o setor jurídico está diante de uma nova inflexão tecnológica. À medida que a IA se desenvolve – e isso acontece a uma velocidade muito rápida! –, ela vai além da execução de tarefas e começa a “pensar junto”, gerando valor preditivo, orientando decisões e, sobretudo, alinhando-se às prioridades centrais do negócio.

      Esse movimento não ocorre no vácuo. A pressão por eficiência, a escassez de recursos e a necessidade de maior previsibilidade exigem que setores jurídicos atuem de forma mais integrada ao core business. Nesse contexto, a IA emerge como catalisadora de uma transformação que vai além da tecnologia.

      Mais da metade (51%) dos entrevistados que participaram do estudo da KPMG dizem já perceber um impacto significativo da IA nos departamentos jurídicos de suas empresas; além disso, 33% consideram esse impacto “alto” e 18% o classificam como “transformador”.

      Esses percentuais reforçam a convicção de que o avanço é real, embora permaneça incipiente em muitas empresas. A mensagem implícita é clara: resistir ao avanço tecnológico não é uma opção viável. Por isso, o melhor a fazer é aproveitar aquilo que ele pode nos propiciar em termos de ganho de tempo, qualidade e produtividade.


      Do operacional ao preditivo


      A principal mudança de paradigma consiste em abandonar a lógica operacional para adotar uma abordagem estratégica e analítica. A IA permite que departamentos jurídicos extraiam insights de bases de dados não estruturadas – como e-mails, atas e relatórios –, transformando informação dispersa em conhecimento acionável. Também viabiliza a migração de processos manuais para modelos preditivos, que antecipam riscos, estimam probabilidades de litígio e sugerem caminhos legais eficientes.

      Os benefícios dessa transição são evidentes: precisão, redução de custos, melhoria na colaboração entre times e maior capacidade de resposta a demandas complexas. Ferramentas como Contract Lifecycle Management (CLM), Enterprise Legal Management (ELM) e softwares de compliance e gestão de riscos estão sendo aprimorados com IA para oferecer visão holística de contratos, obrigações regulatórias e potenciais vulnerabilidades.

      Um ponto importante é como a ascensão das novas tecnologias pode mudar a natureza do relacionamento com prestadores de serviços jurídicos. Modelos baseados em performance, com precificação por valor entregue e previsibilidade de custos, serão cada vez mais relevantes.


      Liderança, cultura e o imprescindível papel humano


      Nenhuma mudança dessa magnitude se sustenta apenas na tecnologia. O protagonismo de General Counsels (GCs) e Chief Legal Officers (CLOs) é essencial. São essas lideranças que devem conduzir a transformação, promovendo uma visão integrada da IA, ancorada em governança, ética e alinhamento às estratégias de negócios.

      Por isso, a jornada de transformação digital das áreas jurídicas corporativas deve avaliar a prontidão tecnológica e estrutural da organização; identificar os casos de uso com maior retorno; e formar equipes interdisciplinares que reúnam jurídico, tecnologia da informação (TI), compliance e áreas de negócio. Em seguida, é preciso alinhar a IA à estratégia corporativa, implementando estruturas robustas de governança algorítmica, com foco em transparência, explicabilidade e mitigação de riscos.

      No longo prazo, o sucesso dependerá da capacidade das organizações de promover uma cultura de inovação. Isso envolve investir em letramento em IA – para que os profissionais entendam como usar e supervisionar as decisões algorítmicas – e adaptar continuamente suas estruturas de governança.

      Além disso, a transformação digital dos departamentos jurídicos requer uma base sólida. Dados precisam ser estruturados, auditáveis e bem governados. Políticas de privacidade e conformidade regulatória devem estar integradas desde o início. A IA, como bem lembra a publicação, não é neutra. Seus vieses, limitações e riscos precisam ser reconhecidos, discutidos e mitigados.

      Nesse aspecto, a supervisão humana se mantém como elemento central. Mesmo diante do avanço de agentes autônomos, a presença de profissionais qualificados para monitorar, ajustar e validar as decisões continua sendo inegociável.

      A IA não é capaz de substituir o pensamento jurídico. Ela pode ampliá-lo e contribuir para seu aprimoramento. Mas o profissional qualificado, a experiência e o olhar humano são imprescindíveis.


      O que está em jogo, afinal?


      Mais do que uma transformação tecnológica, o que está em jogo é a capacidade das organizações de transformar dados em conhecimento e decisões em valor. A IA pode ser o catalisador dessa mudança. Porém, o sucesso depende menos da sofisticação dos algoritmos e mais da clareza da estratégia, da maturidade da liderança e da qualidade dos dados e das pessoas que os interpretam.

      Em um mundo cada vez mais regulado, interdependente e orientado por dados, os jurídicos que souberem combinar IA com visão de futuro sairão na frente. Porque, no fim, a vantagem não estará em quem adotar a IA mais rápido, mas em quem souber fazê-lo de forma mais inteligente, ética e conectada ao negócio.


      Guilherme Tocci
      Sócio-diretor líder de Legal Operations da KPMG no Brasil