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      Em entrevista exclusiva ao HealthNews, Filipa Fixe, Director de Advisory da KPMG Portugal, alerta que a falta de preparação dos dados é o principal entrave à IA na saúde. A responsável defende arquiteturas de referência, governança robusta e uma mudança cultural para equipas multidisciplinares, sublinhando que a tecnologia deve funcionar como um “smart companion” e não substituir os profissionais


      1.      O estudo revela que 55% dos CEOs apontam a falta de preparação dos dados como principal entrave à implementação da IA. Que dimensões da maturidade em dados – interoperabilidade, governança, qualidade ou arquitectura – considera mais críticas e subfinanciadas nas organizações de saúde em Portugal?

      No CEO Outlook da Saúde, 55% dos CEOs identificam os dados como o principal bloqueio à implementação e adoção da IA na saúde. Em Portugal é crítico existirem arquiteturas de referência para processos, sistemas e tecnologias de informação e dados, para que seja possível ter dados normalizados, estruturados e disponíveis em tempo real. Para tal é necessário um investimento concertado na infraestrutura central e em governance para criar fundações sólidas e concretizar uma transformação efetiva no setor da saúde, garantindo mais acesso, mais equidade e mais tempo disponível para profissionais de saúde e doentes.

       

      2.      83% dos líderes esperam retorno do investimento em IA num prazo de três anos. Que indicadores objetivos (ex.: produtividade clínica, redução de carga administrativa, ou tempo por episódio de cuidado) devem ser utilizados para medir esse ROI num ambiente de prestação de cuidados, diferenciando ganhos clínicos dos operacionais?

      O aumento contínuo da procura de cuidados de saúde, impulsionado pela prevalência de doenças e pelo envelhecimento da população, e a escassez de profissionais, impõe uma mudança no modelo de prestação de cuidados. Como tal, a produtividade e eficiência das unidades de saúde e os resultados em saúde são pilares fundamentais para as organizações de futuro através da tecnologia. Estes indicadores podem ser traduzidos quer do ponto de vista operacional (ex: reduzir o número de horas em tarefas de baixo valor acrescentado, libertando, por exemplo, mais tempo clínico para consultas e cirurgias) e do ponto de vista clínico (ex: medicina preventiva por análise de dados – rastreios orientados e antecipados, redução de eventos adversos, redução do número de MCDTs, redução das taxas de readmissão).

       

      3.      O documento identifica um fosso geracional nas competências digitais e que 70% dos CEOs vão reformular funções para colaborar com IA. Que modelo de requalificação (upskilling) e desenho de equipas multidisciplinares recomenda para integrar agentes clínicos de IA e copilotos sem aumentar a carga cognitiva dos profissionais?

      A IA, assim como outras tecnologias emergentes, só terão expressão na saúde se o triângulo – tecnologia, processos e pessoas – estiver completo. A tecnologia por si não pode ser um fim, mas apenas um meio para proporcionar mais acesso, mais equidade e sustentabilidade financeira. A capacitação dos recursos e a formação contínua de profissionais e gestores são fundamentais para saberem utilizar da melhor forma a tecnologia no seu dia-a-dia, sem que tal comprometa a qualidade e a humanidade dos cuidados prestados e respeitando os princípios de privacidade e de segurança dos dados. A IA estende a capacidade dos profissionais, mas não os deve substituir.

      O estudo mostra que estamos perante uma mudança estrutural no modelo de trabalho: 70% dos CEOs planeiam redesenhar funções para integrar a IA. Não se trata de apenas capacitação, é uma mudança cultural e organizacional. O futuro da saúde é feito com equipas multidisciplinares com médicos, enfermeiros, data scientists, engenheiros, user experience, em que as ferramentas de IA passam de projetos tecnológicos para projetos clínicos.

      A tecnologia, nomeadamente a IA, tem de funcionar como um ‘smart companion’ para os profissionais de saúde, ou como um novo membro da equipa e tem de ser integrada como tal.

       

      4.      A cibersegurança surge como pressão de curto prazo, com riscos de identidade, fraude e computação quântica. Que métricas de resiliência cibernética e de privacidade diferencial devem ser adotadas por conselhos de administração que estão confiantes (92%) mas operam com sistemas fragmentados?

      À medida que a transformação digital faz parte integrante do ecossistema da saúde, a cibersegurança e a proteção de dados tornaram‑se imperativos estratégicos para os CEOs. Com a rápida expansão dos registos de saúde eletrónicos, da telemedicina/telemonitorização/hospitalização domiciliária com dispositivos médicos conectados, existe uma preocupação crescente com violações de privacidade de dados, fraude e ciberataques, priorizando o reforço das medidas de proteção contra estas ameaças.

      Ao nível dos dados, será cada vez mais importante monitorizar indicadores de privacidade, como a pseudonimização de dados sensíveis, o controlo de acessos e a rastreabilidade das interações com informação clínica. Em paralelo, a adoção de IA exige mecanismos robustos de governação, incluindo auditorias aos modelos, explicabilidade das decisões e mitigação de vieses.

      Além da proteção, o foco deve também estar na resiliência, garantindo a continuidade operacional. Na saúde, a adoção da IA tem de ser acompanhada por privacidade, cibersegurança, regulação e confiança.

       

      5.      Apenas 30% das organizações integram custos de sustentabilidade e ROI ambiental nas decisões de capital. Como desenhar um caso de negócio que combine a redução da pegada de carbono com os ganhos de eficiência operacional da IA (ex.: otimização de cadeias de abastecimento ou redução de desperdício clínico)?

      O estudo mostra que apenas 30% integram sustentabilidade nas decisões de investimento, o que aponta para uma abordagem ainda dissociada da lógica económica. No entanto, esta separação tende a desaparecer à medida que se torna evidente a relação direta entre eficiência operacional e impacto ambiental. Segundo este estudo, 46% dos CEOs estão a desenvolver colaborações e parcerias com o objetivo de impulsionar a inovação, garantindo simultaneamente o cumprimento dos requisitos ambientais e regulatórios.

      A construção de um business case, que combine critérios de sustentabilidade e económicos, deve começar pela identificação de ganhos operacionais concretos proporcionados pela IA, como a otimização da utilização de recursos, a redução de desperdício clínico, a melhoria da gestão de stocks ou a otimização de fluxos assistenciais. Estes ganhos traduzem-se simultaneamente em redução de custos e de emissões.

      O passo seguinte passa por quantificar este duplo impacto, integrando indicadores financeiros – como poupanças (ex: redução do número de MCDTS’s redundantes, otimização de bloco operatório) ou aumento de produtividade – com métricas ambientais, como a redução da pegada de carbono ou do consumo energético. Esta abordagem permite avaliar os investimentos de forma mais completa e alinhá-los com objetivos estratégicos de longo prazo.

      Um dos contextos onde esta integração é mais relevante é a cadeia de abastecimento, que representa uma parte significativa do impacto ambiental do setor da saúde. A utilização de IA para prever necessidades, otimizar níveis de inventário e reduzir desperdícios tem um efeito direto tanto em eficiência como em sustentabilidade.

       

      6.      O estudo aponta que a resiliência da cadeia de abastecimento e as pressões regulatórias estão no topo das decisões de curto prazo. Que arquitetura de integração entre sistemas de saúde, plataformas de dados e modelos de IA é necessária para antecipar ruturas e simultaneamente garantir conformidade com regulamentação variável entre jurisdições?

      A crescente complexidade da cadeia de abastecimento e o aumento da pressão regulatória exigem uma nova abordagem baseada na integração de sistemas, tecnologias, dados e capacidades analíticas.

      A interoperabilidade é fundamental, para garantir a ligação entre as diferentes entidades do ecossistema, hospitais, fornecedores, distribuidores e reguladores, permitindo uma partilha de informação eficiente e segura. Atualmente, a informação em “silos” limita e dificulta a tomada de decisão em tempo real ou de forma preditiva.

      Tendo esta base de dados e informação, torna-se possível desenvolver uma camada de inteligência artificial com capacidades preditivas, permitindo, por exemplo, antecipar ruturas de stock, prever padrões de procura e otimizar a alocação de recursos físicos e humanos. Esta evolução representa uma mudança de paradigma, passando de uma gestão reativa para uma gestão proativa.

      O objetivo final não é ter mais tecnologia, é garantir mais acesso, mais qualidade, mais eficiência e uma experiência mais centrada no cidadão e nos profissionais de saúde.

       

      *Entrevista de Filipa Fixe, diretora de saúde da KPMG Portugal, a 13 de maio, para a HealthNews

       



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