Mudanças rápidas, consumidores instáveis e altos custos de capital tornam o varejo um setor propenso a dificuldades e falências quando surgem condições recessivas. Dessa vez, não parece diferente.
Para aqueles que sobreviveram à disrupção da pandemia, ou até prosperaram graças a uma rápida adaptação ao e-commerce e às vendas omnichannel, 2023 trouxe mais incertezas. Embora as vendas no varejo tenham crescido de forma constante, ficaram abaixo da tendência de inflação ano a ano.
Curiosamente, enquanto itens essenciais mantiveram a tendência de crescimento, as vendas de bens de consumo não essenciais e de itens de alto valor permaneceram deprimidas.
Conforme as medidas de apoio à economia adotadas durante a crise da covid-19 foram sendo abandonadas, a inflação e a incerteza econômica tornaram os consumidores mais relutantes; os preços mais altos desestimularam a realização de compras discricionárias, até mesmo nos períodos de festas.
Somados, esses elementos impuseram desafios adicionais aos varejistas, tanto no gerenciamento do capital de giro quanto na gestão das normas operacionais. Categorias como decoração de casa e eletrônicos, que haviam florescido durante o lockdown, perderam impulso à medida que as pessoas puderam retomar atividades de lazer e voltaram a frequentar restaurantes.
Do lado da oferta, a pouca disponibilidade de capital, aliada à adoção de medidas fiscais mais rígidas, aumentou a pressão sobre empresas de varejo altamente endividadas, o que acarretou um aumento nas ocorrências de falências, com a América do Norte registrando várias insolvências de alto nível.
Os altos estoques pós-covid aumentaram os custos operacionais – e, como o setor estava precisando de capital de giro, a solução foi oferecer descontos significativos para movimentar a mercadoria parada. Por um lado, isso de fato possibilitou efetuar mais vendas; por outro, reduziu as margens de lucro. Nesse cenário, varejistas tradicionais, juntamente com startups de nicho e marcas diretas para o consumidor, foram duramente atingidos.
A volatilidade e o desempenho abaixo do esperado no setor de mercados de consumo são evidentes na pontuação do Índice de Desempenho Financeiro (FPI) da KPMG. O índice, que atribui pontuações até 100 (com a pontuação mais alta indicando estabilidade financeira), permite constatar que o setor caiu para uma pontuação de 93,91 no último trimestre de 2023, contra 94,49 no trimestre anterior.
Na Europa, o quarto trimestre de 2023 foi modesto para os varejistas, especialmente em razão da crise geopolítica que afeta a região. Outros mercados, como os da América do Sul e da Ásia, testemunharam uma queda de trimestre a trimestre; só o Canadá ficou do lado oposto desse espectro, registrando um crescimento de 9%.
O mercado deve esperar um aumento da inadimplência pelos próximos dois anos, tanto em razão da baixa liquidez quanto pelo risco de refinanciamento à medida que os vencimentos das dívidas se aproximam.
Os varejistas mantiveram perfis de liquidez favoráveis e flexibilidade financeira, graças a reservas de caixa suficientes, investimentos financeiros e recebíveis de cartões de crédito não garantidos. No entanto, uma quantidade substancial de dívidas ainda está para vencer, inclusive em 2025, o que exigirá refinanciamento e traz algumas preocupações.